O Comitê de Política Monetária (Copom) caminha para interromper o ciclo de cortes da Selic nesta quarta-feira (4), mantendo a taxa em 13,75% ao ano. A decisão quebra uma sequência de cinco reduções consecutivas de 0,25 ponto percentual e expõe o tamanho do dilema fiscal que o Banco Central herdou do pós-eleição.
O que está em jogo não é apenas a reunião de novembro. A pausa sinaliza que a autoridade monetária perdeu margem de manobra diante de variáveis que não controla — e o custo dessa paralisação será pago por famílias e empresas endividadas.
O gatilho que mudou tudo em poucos dias
A reeleição de Lula provocou uma reprecificação brutal de ativos brasileiros. O dólar fechou a sexta-feira (30) a R$ 5,447, alta semanal de 9,18% — o maior salto em 18 anos, desde a crise hipotecária americana de 2008. Juros futuros dispararam e o prêmio de risco subiu para níveis que tornam inviável novo corte sem perder credibilidade.
Quatro pilares sustentam a piora do cenário:
- Câmbio pressionado: desvalorização do real eleva importados e combustíveis;
- Incerteza fiscal: medidas expansionistas anulam o efeito dos juros altos;
- Choque de oferta: petróleo em alta e El Niño ameaçam alimentos em 2027;
- Reforma tributária: alíquota da CBS em 11,3% e nova ponderação do IPCA puxam inflação de serviços.
Quando o remédio perde o efeito
Gustavo Loyola, ex-presidente do BC e sócio da Tendências Consultoria, resume o impasse com uma metáfora clínica: “É como dar um remédio que só tem efeito colateral, porque o paciente toma outro medicamento que anula o efeito pretendido”. O “outro medicamento” é a política fiscal expansionista, que estimula a demanda enquanto o BC tenta freá-la.
Resultado: a Selic em 13,75% eleva inadimplência de famílias e empresas sem entregar a ancoragem das expectativas. A inflação projetada para 2027 no boletim Focus já ultrapassa 5% — acima do teto da meta (4,5%) — e o horizonte relevante do BC agora mira o segundo trimestre de 2028.
O fantasma da dominância fiscal
Sérgio Werlang, ex-diretor do BC e professor da FGV, usa o termo “dominância fiscal” para descrever o risco: quando a dívida pública cresce a ponto de o BC perder controle sobre a inflação, subir juros deixa de funcionar e só gera mais inflação. “Não sabemos o número exato, mas sabemos que estamos nos aproximando”, alerta.
Se o câmbio for para muito além de R$ 5,40 — cenário que Werlang considera provável caso a política fiscal não mude —, o BC pode ser forçado a subir a Selic, invertendo toda a trajetória recente.
O que os grandes nomes projetam para as próximas reuniões
A visão majoritária entre economistas ouvidos converge para uma pausa prolongada:
- Fernanda Guardado (BNP Paribas): juros parados até março de 2025, aguardando El Niño, desaceleração, planos fiscais e expectativas;
- Alberto Ramos (Goldman Sachs): pausa de duas a três reuniões; “não tem margem certamente para cortar”;
- Sérgio Werlang (FGV): interrupção para testar se choques são permanentes ou transitórios.
Minoria isolada, Rafaela Vitória (Banco Inter) aposta em mais um corte de 0,25 pp agora, com pausa sinalizada para dezembro. Argumenta que 13,50% ainda seria restritivo o suficiente para amortecer choques esperados no início de 2027.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditarão o próximo movimento do Copom, e nenhuma está sob controle do BC:
- Sinal fiscal concreto: anúncio de medidas estruturais de contenção de despesas, não apenas preservação de programas sociais;
- Trajetória do dólar: sustentação acima de R$ 5,40 por período prolongado força alta de juros;
- Expectativas de 2027/2028 no Focus: se permanecerem acima de 4,5%, a pausa vira viés de alta.
Para o empresário e o investidor, a leitura prática é clara: o custo de capital não vai cair no curto prazo. Planos de expansão, refinanciamento de dívidas e precificação de ativos de risco devem ser calibrados com Selic estável ou em alta até que a equação fiscal feche. O Banco Central já fez a parte dele — agora a bola está no campo de quem define o Orçamento.
