Gilberto Kassab colocou uma condição clara na mesa: sem guinada ao centro na economia, o PSD não se aproxima do governo Lula. O recado foi dado no domingo (1º.nov.2026) e ecoa como um ultimato disfarçado de conselho.
O presidente do PSD não usou meias palavras. Para que o partido integre a base de sustentação do quarto mandato, a política econômica precisa abandonar as margens e ocupar o centro do tabuleiro. A pergunta que fica: o Planalto tem disposição para pagar esse preço?
O xadrez por trás da declaração
Kassab comanda a terceira maior bancada da Câmara, com 42 deputados. No Senado, o PSD controla 15 cadeiras. Números que transformam qualquer aliança em peça decisiva para aprovar reformas, indicar ministros ou blindar o governo de pautas-bomba.
Historicamente, o partido orbitou governos de centro-direita e centro-esquerda com pragmatismo cirúrgico. Apoiou Temer, Bolsonaro e, no segundo turno de 2022, declarou voto em Lula. Agora, cobra a fatura.
O que “centro” significa na prática
Na linguagem de Kassab, agenda de centro se traduz em três pilares concretos:
- Compromisso efetivo com o arcabouço fiscal e metas de superávit primário
- Reforma tributária sem aumento de carga para o setor de serviços
- Autonomia do Banco Central respeitada na prática, não só no discurso
Não por acaso, são exatamente os pontos que geram ruído entre alas do PT e do próprio Ministério da Fazenda. A tensão entre Haddad e a base petista mais à esquerda já produziu recuos em 2024 e 2025.
O cálculo de risco do Planalto
Se Lula ignora o recado, o PSD pode migrar para uma oposição pragmática — vota pautas econômicas liberais, mas bloqueia avanços sociais e institucionais. Cenário que paralisa o governo nos dois últimos anos de mandato.
Se atende, corre o risco de rachar a base histórica. Sindicatos, movimentos sociais e a ala ideológica do PT veem qualquer concessão fiscal como traição. O presidente já enfrentou greves e manifestações em 2025 por causa do pacote de corte de gastos.
O fator 2026 pesa na balança
Kassab não fala só pelo presente. Ele já projeta a sucessão presidencial. O PSD quer ser protagonista na construção de uma alternativa de centro para 2026 — e não pode carregar a marca de “sócio de um governo que estourou as contas”.
Essa leitura explica por que o aviso veio agora, no primeiro domingo de novembro, e não em janeiro. O calendário legislativo aperta: reforma administrativa, nova âncora fiscal e regulação de IA precisam andar até junho. Sem o PSD, nada passa.
Sinais contraditórios do governo
Na semana passada, Haddad sinalizou abertura para rever a meta de superávit de 2025, citando “realismo fiscal”. No mesmo dia, a líder do governo no Congresso, Gleisi Hoffmann, defendeu “expansão do investimento público a qualquer custo”. A dissonância não passou despercebida no PSD.
Kassab conhece o jogo. Foi ministro de Dilma, articulou a base de Temer, negociou com Bolsonaro. Sabe que declarações públicas de presidentes de partido servem para marcar posição no tabuleiro interno — e para forçar negociações reservadas nos bastidores.
O que observar nas próximas semanas
Três movimentos dirão se o recado foi ouvido: a indicação do substituto de Roberto Campos Neto no BC (mandato encerra em dezembro), o texto final da regulamentação da reforma tributária no Senado e a postura do governo na votação do novo arcabouço fiscal no primeiro semestre de 2027.
Se Lula escolher nomes técnicos para o BC, blindar o setor de serviços na tributária e defender o teto de gastos reais, Kassab terá a sinalização que procura. Caso contrário, o PSD começa 2027 como oposição — e o quarto mandato vira travessia no deserto.
