Economia

Conta de luz: só 30% é energia; o resto é imposto e encargo que você nem vê

Fatura de energia elétrica aberta mostrando detalhamento de custos com destaque para impostos e encargos representando 70% do valor total
Estudo da FGV revela que apenas 30% da conta de luz paga energia; 70% são impostos e encargos setoriais

Em uma fatura de R$ 1 mil, apenas R$ 300 pagam a eletricidade consumida. O restante — 70% — cobre distribuição, transmissão, subsídios setoriais e tributos. Um estudo da FGV revela por que o Brasil, com 90% de matriz renovável, cobra mais caro que Canadá, Noruega e China.

O peso no bolso é real: a energia elétrica é o terceiro item que mais pressiona a inflação, atrás apenas de gasolina e planos de saúde. Para empresas e condomínios, a conta chega a consumir 40% do orçamento total, travando investimentos e encarecendo produtos finais.

O que realmente compõe sua fatura

Dados de 2025 mostram a divisão exata de cada real pago na conta de luz:

  • Energia (geração): 30,4%
  • Distribuição: 26%
  • Tributos (PIS/Cofins, ICMS): 18%
  • Encargos setoriais: 15%
  • Transmissão: 10%

Ou seja: mais de dois terços do valor não têm relação direta com o custo de produzir a eletricidade. Os encargos bancam programas sociais, subsídios à irrigação e a obrigatoriedade de contratar termelétricas e pequenas hidrelétricas — mesmo quando há água nos reservatórios.

Por que países com a mesma matriz pagam menos

Em ranking de 138 nações, o Brasil não lidera o preço mais alto, mas figura acima de pares com perfil hidrelétrico semelhante. Canadá, Noruega e China convertem a abundância hídrica em tarifas residências e industriais significativamente menores.

Três fatores explicam a diferença:

  • Perdas de transmissão e distribuição acima da média global
  • Falta de coordenação entre esferas de governo para reduzir desperdícios
  • Mecanismo de bandeiras tarifárias que repassa ao consumidor o risco hidrológico

O caso de quem decidiu produzir a própria energia

Uma indústria de processamento de pescado com 82 anos de história ilustra o impacto no setor produtivo. Câmaras frias a -25°C exigem energia constante — e o custo tornou-se entrave ao crescimento.

A solução encontrada combinou três frentes:

  • Duas usinas solares próprias
  • Substituição de equipamentos por modelos de alta eficiência
  • Gestão de consumo via inteligência artificial

Resultado: redução de 30% na fatura. Mas a alternativa exigiu capital próprio e não está ao alcance da maioria das pequenas e médias empresas.

O que observar nos próximos meses

Discussões no Congresso e na Aneel giram em torno de três eixos que podem alterar a estrutura de custos: revisão dos encargos setoriais, abertura do mercado livre para consumidores de menor porte e regras para armazenamento de energia — essencial para firmar a expansão solar e eólica sem aumentar a dependência de termelétricas.

Para o consumidor final, a atenção deve voltar-se para:

  • Migração para o mercado livre (já disponível para demanda acima de 500 kW)
  • Programas de eficiência energética oferecidos pelas distribuidoras
  • Geração distribuída compartilhada — opção para quem não tem telhado próprio

Enquanto a estrutura tributária e regulatória não muda, a conta segue pesada: a energia limpa e barata que o Brasil produz continua chegando cara na tomada.