Internacional

Sérvia: como uma tragédia ferroviária derrubou 14 anos de poder

Estudantes sérvios protestam com faixas contra corrupção após colapso de marquise em Novi Sad
Protestos estudantis em massa exigiram justiça pelas 16 vítimas do desabamento na estação de Novi Sad.

Nas eleições de 2026, a Sérvia elegeu uma lista sem líder único, composta por 250 profissionais de áreas diversas, que obteve 53% dos votos e encerrou 14 anos de domínio do Partido Progressista de Aleksandar Vucic. O gatilho foi o colapso de uma marquise na estação de Novi Sad em novembro de 2024, matando 16 pessoas e expondo corrupção sistêmica nas obras públicas. Mas como um movimento estudantil sem estrutura partidária conseguiu vencer uma máquina política consolidada?

O colapso que expôs o sistema

Às 11h52 de 1º de novembro de 2024, a cobertura da entrada principal da estação ferroviária de Novi Sad desabou. Dezesseis vítimas fatais depois, a população conectou o acidente diretamente ao presidente Vucic, que havia priorizado a reforma do terminal como vitrine de seu plano de trens de alta velocidade.

A estação, inaugurada em 1964 e símbolo da moderna Voivodina, já sobrevivera a guerras, bombardeios da OTAN em 1999 e ao colapso da Iugoslávia. Sua destruição parcial sob gestão atual funcionou como metáfora visível da deterioração institucional.

O episódio detonou protestos que começaram nas universidades e, em semanas, reuniram trabalhadores rurais, artistas, magistrados e cidadãos comuns. Em janeiro de 2025, o primeiro-ministro renunciou; em março, Belgrado registrou as maiores manifestações antigoverno da história sérvia.

Da revolta nas ruas à autogestão coletiva

Diferente de movimentos tradicionais, os estudantes recusaram líderes carismáticos. Segundo o pesquisador Aleksandar Matkovic, “o conhecimento veio antes da organização”. Durante dois anos, promoveram debates de até seis horas sobre mineração de lítio, oligarquias locais, saúde pública e educação.

Essa cultura de deliberação horizontal gerou a Lista dos Estudantes: uma chapa de 250 nomes sem hierarquia formal. A plataforma prioriza três eixos:

  • Combate à corrupção e vínculos entre política e crime organizado
  • Reforma da mídia estatal para garantir liberdade editorial
  • Fim de indicações políticas para comando de empresas públicas

O modelo inédito desde o fim da Iugoslávia atraiu eleitores cansados da polarização tradicional.

O perfil inédito dos novos parlamentares

A composição da lista quebrou paradigmas: 53% dos integrantes possuem doutorado, 44% são mulheres e nenhum é estudante. Há psicólogas, cardiologistas, professores de química — profissionais técnicos, não carreiristas partidários.

Essa configuração sinaliza ao mercado e a parceiros internacionais uma possível mudança na gestão de contratos públicos, licitações e regulação setorial. A dependência sérvia de investimento externo, reforçada por Vucic via acordos com a Rio Tinto para exploração de lítio, pode enfrentar revisão de termos.

Implicações para investidores e parceiros comerciais

A Sérvia manteve sob Vucic um equilíbrio delicado: candidatura à União Europeia, boas relações com Rússia e China, e abertura a corporações globais. A nova maioria parlamentar promete transparência, mas seu caráter experimental gera incerteza regulatória no curto prazo.

Setores sensíveis — mineração, energia, infraestrutura ferroviária — devem ser os primeiros a sentir efeitos de auditorias e renegociações. Por outro lado, a promessa de imprensa livre e judiciário independente pode reduzir risco país a médio prazo.

Mas o efeito mais relevante aparece na geopolítica regional.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão a solidez da transição nos próximos 12 meses: a capacidade da lista heterogênea de manter coesão sem liderança vertical; a reação de estruturas de poder remanescentes — forças de segurança, oligarquias regionais, mídia alinhada; e a posição da UE, que pode acelerar ou travar o processo de adesão conforme avalie a estabilidade democrática.

Para quem opera na região ou monitora mercados emergentes, a Sérvia deixa de ser um estudo de caso sobre resiliência autocrática e vira laboratório de governança horizontal. O primeiro teste real será a elaboração do orçamento 2027: se a Lista dos Estudantes aprovar contas sem fisiologismo, o sinal ao mercado será definitivo.