O mundo consumiu quase 1 bilhão de barris das reservas de segurança desde o fim de fevereiro, quando o conflito no Oriente Médio fechou o estreito de Ormuz. O alerta vem de Sultan Al Jaber, CEO da Adnoc, a petrolífera estatal dos Emirados Árabes, durante a conferência ADIPEC.
O número expõe uma fragilidade que vai muito além do mercado de commodities. Diesel em mínimas de 35 anos para a época. Gás natural liquefeito com déficit de 600 bilhões de pés cúbicos. O custo logístico de cada barril saltou de 5% para 30%.
O impacto direto no diesel e no custo de vida
Os preços do diesel atingiram máximas históricas em diversos mercados. Como o combustível move caminhões, tratores e geradores, a alta repercute no frete, no alimento e na energia. Governos enfrentam pressão inflacionária imediata; consumidores, o encarecimento da cesta básica.
A Agência Internacional de Energia (AIE) reagiu no mês passado liberando mais de 20 milhões de barris de diesel, além do petróleo remanescente de uma liberação recorde de reservas emergenciais anunciada em março. Foi um alívio pontual, não uma solução estrutural.
Logística: o custo invisível que triplicou
O frete marítimo e a logística, que representavam 5% do custo de um barril antes do conflito, agora respondem por 30%. Rotas alternativas ao estreito de Ormuz alongam viagens, consomem mais combustível e exigem prêmios de seguro elevados. Esse componente não cai tão rápido quanto o preço da commodity em si.
Brent negocia a US$ 110 — alta de cerca de 50% desde fevereiro. Mas o valor na bomba reflete também esse “imposto logístico” que persiste mesmo se a cotação recuar.
Estoques comerciais: a realidade nua
Amin Nasser, CEO da Saudi Aramco, foi direto no mês passado: restam menos de 6 bilhões de barris em estoques comerciais globais. A maior parte, porém, está “indisponível na prática” — localizada longe dos centros de consumo, em tanques de difícil acesso ou comprometida por contratos de longo prazo.
Al Jaber resume a lição: “A infraestrutura deve ser construída antes de se tornar necessária”. Ele defende três pilares: ampliar armazenamento estratégico, aumentar estoques de derivados (não só óleo cru) e ter capacidade de refino flexível próxima aos mercados consumidores.
- Diesel: níveis mais baixos em 35 anos para o período
- GNL: déficit de 17 bilhões de metros cúbicos
- Logística: custo subiu de 5% para 30% do valor do barril
- Brent: US$ 110 (+50% desde fevereiro)
- Estoque comercial efetivo: < 6 bilhões de barris
O que observar daqui para frente
A recomposição das reservas exigirá anos de superávit de oferta — algo que a atual capacidade de refino e a logística tensionada dificultam. Enquanto isso, qualquer nova interrupção no estreito de Ormuz ou em rotas alternativas terá efeito amplificado sobre preços.
Para empresas, o cenário reforça a necessidade de contratos de fornecimento com cláusulas de força maior bem definidas e de diversificação de modais de transporte. Para investidores, o foco migra para ativos de midstream (armazenamento, dutos, terminais) e refinarias com flexibilidade de produto — são eles que capturam o valor quando a logística aperta.
O próximo relatório mensal da AIE e os dados semanais de estoques dos EUA (EIA) dirão se a sangria estancou ou se o bilhão de barris foi apenas o começo.
