Economia

Baleias valem US$ 82 bi: o segredo que salvou Abrolhos

Baleia jubarte saltando no Parque Marinho de Abrolhos com barcos de observação ao fundo
Observação de baleias em Abrolhos: a economia viva que substituiu a pesca predatória.

Uma conta feita pelo Fundo Monetário Internacional colocou preço na vida marinha: as baleias no Brasil geram mais de US$ 82 bilhões em serviços ecossistêmicos. No Arquipélago de Abrolhos, esse valor deixou de ser teórico para virar folha de pagamento e lucro real.

Onde antes só havia redes de pesca, hoje uma frota de observação movimenta a economia local o ano todo. Entenda como a proibição da caça e a criação do parque marinho transformaram um predador em ativo financeiro.

Do enjoo no convés ao comando de frota

Paulo Salomão mareava aos seis anos, jogado no chão do barco do pai em Ponta de Areia, Caravelas (BA). A ironia é que o garoto que não aguentava o balanço virou capitão e empresário aos 18, tirando a licença de piloto pela Marinha.

O divisor de águas veio em 1983: a criação do Parque Marinho dos Abrolhos proibiu a pesca na região. Sem peixes para vender, Salomão apostou nos peixes vivos. Batizou seu primeiro barco de Teimoso e começou a levar mergulhadores.

Hoje, ele comanda quatro embarcações — uma com capacidade para 50 passageiros — e emprega dez pessoas. A virada de chave do faturamento, porém, tem nome e sobrenome: baleia-jubarte.

O inverno que superou o verão

Há uma década, o pico de movimento era o verão. Atualmente, apenas o mês de agosto — auge da temporada reprodutiva — fatura mais que os três meses de alta estação combinados.

  • 90% das jubartes que vêm ao Brasil concentram-se em Abrolhos.
  • A população saltou de menos de 2 mil (início dos anos 90) para cerca de 35 mil (estimativa 2022).
  • Para operadores locais, a renda deixou de ser sazonal e passou a ser anual.

“Antes a gente só contava com o verão. Com o aumento das baleias, passamos a ter fluxo no inverno também. É dinheiro novo circulando no município”, resume Salomão.

Três pilares que evitaram a extinção

A recuperação populacional não foi acidente. Três medidas simultâneas criaram o cenário atual:

  1. Proibição da caça no Brasil (1987);
  2. Criação do Parque Marinho dos Abrolhos, protegendo a maternidade da espécie;
  3. Atuação de ONGs especializadas, com destaque para o Instituto Baleia Jubarte (30 anos de atividade, patrocínio principal da Petrobras).

Para Eduardo Camargo, diretor executivo do Instituto, o turismo de observação funciona como ferramenta de conservação porque “agrega valor econômico à baleia viva”. A lógica é simples: ninguém protege o que não gera retorno, mas todos defendem o sustento da família.

Regras duras para um mercado em expansão

O crescimento trouxe a necessidade de ordem. Portaria do Ministério do Meio Ambiente publicada em agosto de 2026 endureceu o protocolo de aproximação:

  • Distância mínima de 100 metros dos animais;
  • Tempo máximo de 60 minutos por grupo (cai para 30 min se houver filhote);
  • Limite de duas embarcações simultâneas próximas ao animal;
  • Proibição total de toque, perseguição, cerco ou qualquer ação que altere o deslocamento natural.

A fiscalização cabe ao poder público, mas o Instituto atua na ponta: capacita operadores e gerencia o selo “Amigo da Baleia”, concedido apenas a quem passa pelo treinamento anual. A renovação constante é obrigatória, já que a mão de obra rotaciona.

O ativo invisível: carbono, nutrientes e peixes

O valor de US$ 82 bilhões (estudo FMI/Universidade Duke/Instituto Baleia Jubarte/Great Whale Conservancy) não vem só do ingresso do turista. Inclui serviços que a contabilidade convencional ignora:

  • Bomba biológica: Alimentam-se na Antártica (ferro/krill) e defecam em águas tropicais, fertilizando o fitoplâncton — base da cadeia alimentar.
  • Sequestro de carbono: Cada grande baleia acumula cerca de 33 toneladas de CO₂ ao longo da vida; ao morrer, afunda e leva o carbono para o fundo do mar.
  • Pesca indireta: A fertilização aumenta a produtividade de peixes de interesse comercial fora das áreas de proteção.

Milton Marcondes, diretor de pesquisa do Instituto, resume: “Conservar baleias não é só estética ou turismo; é manter a engrenagem do oceano funcionando.”

O que observar daqui para frente

O modelo de Abrolhos virou vitrine para outros trechos do litoral. Centros de visitação já operam em Praia do Forte, Itacaré, Vitória, Ilhabela e, recentemente, Porto Seguro. A tendência é a interiorização do fluxo turístico, reduzindo a pressão sobre o arquipélago central.

Do lado dos riscos, dois pontos exigem monitoramento contínuo: a mudança climática — que altera a distribuição de krill na Antártica e pode reduzir a taxa de natalidade — e a fiscalização efetiva do novo regramento em alta temporada, quando o número de barcos particulares explode. Quem investe no setor deve priorizar embarcações adaptadas às normas e guias certificados; a margem de erro para infrações tende a zero nos próximos editais de concessão.