Justiça

Racismo escancarado e PEC perigosa: o que 2026 escondeu do investidor

Imagem simbólica de racismo estrutural nas eleições 2026: correntes, chicote e PEC representam ameaças à democracia
Simbolismos de ódio e propostas legislativas perigosas marcam a campanha eleitoral de 2026.

A campanha eleitoral de 2026 funcionou como um raio-X involuntário: expôs o quanto o racismo estrutural segue ditando regras no jogo de poder brasileiro. Mais do que ruído político, os episódios revelam um alinhamento perigoso entre simbolismos de ódio e propostas legislativas com impacto direto na segurança jurídica e no custo social do país.

O que conecta um homem acorrentado em ato público no Rio de Janeiro, uma parlamentar estalando chicote em Santa Catarina e uma Proposta de Emenda Constitucional defendida por Situation e oposição? A resposta aponta para um risco sistêmico que o mercado costuma subestimar.

O simbolismo que virou alerta de risco

Em manifestação de extrema direita no RJ, a encenação de um homem branco conduzindo um homem negro acorrentado — vestido de vermelho e portando tridente — não foi apenas uma performance de mau gosto. A imagem evoca diretamente a iconografia da escravidão e, segundo analistas de movimentos sociais, uma possível distorção intencional de Exu, orixá das religiões de matriz africana.

Dias depois, no Sul, uma deputada eleita comemorou a vitória estalando um chicote nas ruas. O gesto, amplamente difundido em redes sociais, remete ao instrumento de tortura usado contra corpos negros por séculos. Isolados, poderiam ser descartados como folclore de campanha. Juntos, formam um padrão: a banalização de símbolos de suplício como ferramenta de mobilização política.

O consenso perigoso em torno da PEC da Maioridade

O ponto de inflexão concreta, porém, veio com a PEC que propõe a redução da maioridade penal. Em movimento raro, a proposta encontrou respaldo nos dois polos que disputavam a Presidência. Para o setor produtivo e para investidores, o sinal é claro: há convergência parlamentar para endurecer o arcabouço penal independentemente de quem ocupe o Planalto.

O texto ignora um dado estrutural: a esmagadora maioria dos adolescentes no sistema socioeducativo é negra, pobre, com baixa escolaridade e em situação de vulnerabilidade social. Alterar a idade de imputabilidade atinge, na prática, esse recorte demográfico específico.

O que os números dizem — e por que divergem do discurso

O argumento central dos defensores da PEC é a promessa de mais segurança pública. Os dados do Instituto Sou da Paz, contudo, contam outra história:

  • Adolescentes respondem por menos de 1% do total de crimes registrados no país;
  • Em homicídios e tentativas, a participação cai para 0,5%;
  • A criminalidade juvenil representa uma fração residual diante do volume total de infrações.

Não há evidência empírica robusta de que a prisão precoce reduza a reincidência ou a violência. Pelo contrário: a literatura criminológica internacional aponta que o encarceramento precoce eleva a probabilidade de carreira criminosa.

O efeito colateral que assusta especialistas em segurança

O risco mais imediato não está na estatística de crimes, mas na dinâmica do sistema prisional. A inserção de adolescentes em penitenciárias adultas funciona como porta de entrada facilitada para facções criminosas.

Relatórios de inteligência penitenciária indicam que o recrutamento de menores por organizações criminosas acelera quando o convívio carcerário se torna obrigatório. Ou seja: a medida pode expandir a base de mão de obra do crime organizado, pressionando custos de segurança pública e instabilidade social no médio prazo.

O que monitorar daqui para frente

A tramitação da PEC deve ser acompanhada como indicador de risco regulatório e social. Três variáveis merecem atenção contínua:

  • Articulação no Congresso: velocidade de votação em comissões especiais e plenário;
  • Posicionamento do STF: eventual judicialização baseada em cláusulas pétreas (direitos fundamentais);
  • Dados do SNIC: monitoramento do ingresso de jovens no sistema prisional adulto, caso a medida avance.

Para quem gere capital, ativos ou estratégias de longo prazo, a equação é simples: instabilidade social eleva prêmio de risco. A campanha de 2026 mostrou que o atalho punitivista tem apelo eleitoral transversal, mas carece de lastro técnico. O custo da ignorância dos dados, no fim, será pago na forma de insegurança jurídica e pressão fiscal.