Economia

Economia dos EUA: o segredo por trás do pessimismo recorde

Eleitor americano preocupado com preços altos no supermercado durante eleições de meio de mandato
Inflação domina preocupações do eleitor apesar de indicadores econômicos positivos

Faltam horas para as eleições de meio de mandato que definirão o controle do Congresso, mas o eleitor americano ignora os recordes de emprego e bolsa: o que pesa no bolso é a inflação que não cede. O paradoxo expõe uma fratura perigosa entre dados macroeconômicos e a realidade doméstica.

Por que a maior economia do mundo cresce 3,4% ao ano, mas o sentimento do consumidor atinge mínimos históricos? A resposta está numa combinação tóxica de guerra, juros e custos de moradia que anulam os ganhos salariais.

O mercado de trabalho que os números não explicam

Os indicadores formais são impecáveis. A taxa de desemprego estaciona em 4,2% há cinco anos — o ciclo mais longo abaixo de 4,5% já registrado. Pedidos de seguro-desemprego tocam o piso de 57 anos. Não há demissões em massa.

O Conference Board captou melhora na percepção de vagas disponíveis em outubro. Recém-formados, porém, relatam dificuldade real de entrada. O hiato entre a estatística e a vivência do jovem profissional alimenta a desconfiança nas pesquisas oficiais.

Bolsa em alta, mas riqueza concentrada

Os índices acionários colecionaram recordes em 2026, turbinados por investimentos em inteligência artificial que cresceram 12,7% no último trimestre. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, resume: “comportamento do consumidor e das empresas está sólido”.

O problema é a distribuição. A maior parte das ações pertence às famílias de renda alta. O efeito riqueza sustentou o consumo agregado, mas não aliviou o orçamento de quem vive de salário.

  • Crescimento PIB (anualizado): 3,4% no 3º tri
  • Investimento empresarial (IA): +12,7%
  • Desemprego: 4,2% (set/2026)

A inflação que a guerra importou

Desde os ataques conjuntos de EUA e Israel ao Irã, há oito meses, o choque de combustíveis contaminou toda a cadeia de preços. A meta de 2% do Fed virou miragem distante.

Dados do Departamento de Trabalho mostram: de janeiro de 2025 até agora, preços e salários subiram cerca de 5,5%. Em poder de compra real, o trabalhador estagnou. O ganho nominal evaporou na bomba de gasolina e na conta de luz.

Juros altos travam o sonho da casa própria

O Fed subiu a taxa em setembro e sinaliza novo aperto em dezembro. O presidente Kevin Warsh promete não “atrapalhar o funcionamento da economia”, mas o efeito colateral já bate à porta.

Financiamento imobiliário de 30 anos acima de 7% somado à escassez de oferta tirou a compra da casa do radar de milhões. É a dor mais concreta relatada nas urnas — e que nenhum índice de bolsa resolve.

Rachaduras no motor da IA

Resultados recentes de Amazon e Intel assustaram o Nasdaq. O mercado começa a questionar a sustentabilidade do capex bilionário em inteligência artificial. Se o otimismo com IA reverter, o pilar que segurou a bolsa e o investimento empresarial pode ruir justamente quando o consumidor está exaurido.

O que observar daqui para frente

Duas variáveis ditarão o próximo trimestre: a decisão de juros do Fed em dezembro e a composição do novo Congresso. Um Legislativo dividido pode travar estímulos fiscais, deixando o peso do ajuste todo sobre a política monetária. Para o investidor, o sinal de alerta está no spread entre lucros corporativos reais e expectativas de IA — se a desconexão aumentar, a correção nos ativos de risco será o próximo capítulo desta história.