Economia

Elétricos usados giram mais que híbridos leves: o dado que surpreende o mercado

Gráfico comparando tempo de venda: carros elétricos usados 55 dias vs híbridos leves 88 dias, dados Indicata outubro 2026
Elétricos usados giram 37% mais rápido que híbridos leves apesar de desvalorização similar, revela Indicata.

Carros elétricos usados levam, em média, 55 dias para serem vendidos, enquanto híbridos leves (MHEV) encalham por 88 dias — apesar de ambas as categorias sofrerem desvalorização similar. O paradoxo expõe uma fratura silenciosa no mercado de seminovos que pega investidores e lojistas de surpresa.

O levantamento de outubro de 2026 da Indicata revela que a liquidez não acompanha o preço. Entender essa desconexão virou questão de sobrevivência para quem precifica ativos automotivos.

O abismo entre desvalorização e giro de estoque

Os híbridos leves registram o pior índice de preços do varejo: 82 pontos (base 100 em jan/2024), queda de quase seis pontos em um ano. O tempo de estoque (MDS) de 88 dias é o maior entre todas as motorizações analisadas, sinalizando rejeição do comprador final.

Já os elétricos puros (BEV) apresentam índice ainda menor, 81,65 pontos, mas giram o estoque em 55 dias. A diferença de 33 dias na velocidade de venda muda completamente a equação de risco para o lojista.

BYD domina a liquidez entre eletrificados

Três modelos da marca chinesa lideram o ranking de menor tempo de estoque entre veículos com até quatro anos de uso:

  • BYD Dolphin: 29,9 dias (MDS)
  • BYD King (PHEV): 31,3 dias
  • BYD Dolphin Mini: 34,7 dias

O relatório aponta que o menor custo operacional em trajetos urbanos atrai motoristas de aplicativo e frotistas, perfis que priorizam giro rápido sobre valor de revenda futuro. A liquidez, contudo, não garante preservação de capital.

Híbridos convencionais são o porto seguro; plug-ins sofrem

Enquanto os MHEVs afundam, os híbridos convencionais (HEV) mantêm estabilidade rara: índice de 89,82 pontos, leve alta anual, e MDS de 61 dias. É a tecnologia com melhor equilíbrio entre preço e velocidade.

Os híbridos plug-in (PHEV) seguem o caminho inverso: índice caiu para 83,64 pontos e o MDS subiu de 67 para 71 dias. A categoria combina perda de valor com dificuldade crescente de venda.

Flex continua rei, mas mercado envelhece menos

Modelos flex respondem por 81% das vendas e 78,6% do estoque usado. Índice de preços em 100,29 pontos e MDS de 61 dias mostram normalidade. Gasolina (90,77 pts, 78 dias) e diesel (92 pts, 74 dias) penam com giro lento.

No volume, Onix (52,9 dias), Polo (48,6 dias) e HB20 (50,5 dias) ditam o ritmo. Paralelamente, a fatia de seminovos com até dois anos saltou para 37,75% (era 34%), enquanto veículos com cinco anos ou mais caíram para 42,80%. O mercado rejuvenesce, mas o crescimento acumulado de transações desacelerou de 7,7% para 5,4% no terceiro trimestre.

O que observar daqui para frente

Em setembro de 2026, eletrificados (BEV, PHEV, HEV) atingiram 19,8% dos emplacamentos de zero-quilômetro — o dobro de 2025. Quase metade (49,1%) foram vendas diretas para frotas e corporações. Esses ativos entrarão no mercado de usados nos próximos 24 a 36 meses.

Para concessionárias, locadoras e bancos, a lição é clara: o risco residual deixou de ser binário (combustão vs. eletrificação). Agora, depende de geração tecnológica, faixa de preço, aceitação do modelo e perfil do comprador. Monitorar o MDS por modelo específico, e não apenas por categoria, virou o novo padrão de gestão de carteira.