Partidos de centro costuram uma reforma que troca o sistema de eleição de deputados e vereadores a partir de 2034. O modelo misto fará o eleitor votar duas vezes na mesma urna. A mudança promete frear “puxadores de voto”, mas mantém distorções entre estados.
O texto já passou por comissão especial e segue para o plenário da Câmara. Se aprovado, valerá para a eleição municipal de 2034 e a federal de 2036. O prazo curto pressiona campanhas e partidos a se adaptarem.
Como funciona o voto duplo na prática
Na cédula eletrônica, o cidadão fará duas escolhas distintas. A primeira elege o representante do seu distrito — um território menor, com cerca de 300 a 400 mil eleitores. A segunda define a legenda, distribuindo as cadeiras restantes pela proporcionalidade partidária.
Metade das vagas virá do voto distrital. A outra metade, do voto em legenda. Hoje, um deputado federal pode ser eleito com 200 mil votos enquanto outro, no mesmo estado, entra com 30 mil graças à soma da coligação. O novo desenho reduz essa’écart, mas não o elimina.
O que muda para os “puxadores de voto”
Atualmente, candidatos carismáticos arrastam colegas de partido com votações inexpressivas. No modelo misto, o puxador continua forte no voto de legenda, mas perde o poder de eleger automaticamente a chapa inteira. Cada distrito elege um só — quem fica em segundo, mesmo com 49%, sai sem mandato.
- Voto distrital: majoritário, um vencedor por território
- Voto de legenda: proporcional, preenche as cadeiras restantes
- Fim das coligações proporcionais: já valia desde 2020, mas o misto reforça a barreira
Partidos pequenos temem encolher. Sem coligação e com distritos que favorecem máquinas locais, legendas sem capilaridade territorial correm risco de não eleger ninguém no voto distrital e depender só da cláusula de barreira no voto de legenda.
Desequilíbrio entre unidades da Federação persiste
A Constituição fixa bancadas mínimas (8) e máximas (70) por estado. Roraima tem um deputado para cada 58 mil habitantes. São Paulo, um para cada 580 mil. O distrital misto não mexe nessa conta. Os distritos serão desenhados dentro de cada UF, preservando a disparidade.
Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que a reforma ataca o sintoma — a pulverização de partidos — sem enfrentar a causa raiz: a representação desigual. Um deputado de Roraima continuará pesando o mesmo no plenário que um de São Paulo, mas representará dez vezes menos gente.
Calendário apertado e zona de turbulência
Se a promulgação ocorrer até outubro de 2025, a regra vale para 2034. Partidos terão menos de nove anos para montar nominatas competitivas em centenas de novos distritos. O mapa distrital ainda não existe — caberá ao TSE desenhá-lo com base no Censo de 2030.
Até lá, duas eleições (2026 e 2030) seguem no modelo atual. Candidatos e dirigentes precisam operar em dois sistemas simultâneos: o de hoje e o que vem aí. Quem antecipar a organização territorial larga na frente.
O que observar nos próximos meses
A votação em plenário é o próximo gatilho. Acompanhe a definição dos critérios de districamento: população, continuidade geográfica, limites municipais. Cada escolha beneficia grupos distintos. Também fique atento à cláusula de desempenho no voto de legenda — se subir, partidos médios podem sumir.
Para quem atua em campanhas, governo ou mercado político, o recado é claro: comece a mapear bases eleitorais por microterritório agora. O voto distrital premia quem conhece o bairro, a rua, o líder comunitário. A estrutura nacional de partido importa menos que a capilaridade local. Quem não tiver capilaridade, perde espaço — e mandato.
