As cinco maiores petroleiras ocidentais embolsaram mais de US$ 50 bilhões em lucro líquido no terceiro trimestre, mas o dinheiro não está voltando para o chão de fábrica. Em vez de erguer novas refinarias para aliviar a crise de abastecimento, ExxonMobil, Chevron, BP, Shell e TotalEnergies priorizam recompras de ações e pagamento de dívidas.
A decisão contraria apelos diretos de Donald Trump e líderes do G7 por mais capacidade de refino doméstica. O que explica essa teimosia estratégica enquanto a margem do diesel bate recordes?
O motor do lucro: refino no limite
As divisões de refino operaram quase a 100% da capacidade nos últimos meses. A guerra no Irã fechou o Estreito de Hormuz, e ataques a instalações russas tiraram cerca de 10% da capacidade global de processamento do mapa.
Some-se a isso restrições de exportação da China e da Rússia. O resultado é um mercado apertado onde a Agência Internacional de Energia (IEA) prevê escassez de diesel até 2027.
Bilhões para o acionista, zero para tijolo e cimento
A Shell anunciou recompra de US$ 5 bilhões para o trimestre atual. A Exxon travou compromisso de US$ 20 bilhões em buybacks até 2027. A BP usa o caixa extra para desalavancar o balanço.
Executivos admitem que as margens atuais são atrativas, mas argumentam que não são sustentáveis. “Ninguém constrói uma refinaria do zero na Europa ou EUA considerando o tempo que leva”, resume Allen Good, analista da Morningstar.
O fantasma da transição energética
O medo central é o de ativos encalhados (*stranded assets*). Com a demanda por combustíveis fósseis projetada para cair nas próximas décadas, um investimento de bilhões que leva anos para ficar pronto pode nunca se pagar.
Meg O’Neill, CEO da BP, foi direta: a empresa não venderá mais ativos — após se desfazer da refinaria de Gelsenkirchen —, mas também “não ampliará a capacidade neste momento”.
O que as empresas estão fazendo (e o que evitam)
- Pequenos aportes: Investimentos de “dezenas ou centenas de milhões” para otimizar plantas existentes (debottlenecking).
- Foco em midstream: Phillips 66 direciona capital para armazenamento e logística, não para refino pesado.
- Oportunismo marrom: Valero comprou a refinaria ociosa da LyondellBasell em Houston por US$ 320,5 milhões. A meta: religar 165 mil bpd até fim de 2027.
O mapa do refino migrou para o Leste
Enquanto EUA e Europa encolheram 2,1 milhões de bpd desde 2019, China, Oriente Médio, Índia, Nigéria e México adicionaram 4,4 milhões de bpd, segundo o Federal Reserve de Dallas. A nova capacidade nasce onde a demanda ainda cresce e a regulação é menos hostil.
Cenário de risco: Brent a US$ 120 e crack do diesel a US$ 100
Joe DeLaura, do Rabobank, projeta petróleo Brent médio a US$ 120 no primeiro semestre do próximo ano. O *crack spread* do diesel deve orbitar US$ 100/barril no mesmo período.
A variável explosiva é a geopolítica. DeLaura alerta que tanto Irã quanto EUA devem atacar infraestrutura energética em escala maior. Trump já sinalizou que seu governo “talvez realize outra pequena Fúria Épica”, referindo-se à operação militar de fevereiro.
O que observar daqui para frente
O xadrez está montado: margens recordes sustentam balanços no curto prazo, mas o medo da transição energética trava o investimento estrutural no Ocidente. Se a escalada no Oriente Médio se confirmar, a conta chega na bomba — e na inflação global — antes que qualquer nova refinaria possa ser erguida. Acompanhe os anúncios de *capex* para 2025: qualquer sinal de greenfield (nova planta) nos EUA ou Europa será o verdadeiro termômetro de confiança do setor.
