A 4BIO, braço de medicamentos de alto custo do Grupo Profarma, está virando a chave: sai do balcão da farmácia e entra de vez em hospitais, clínicas e operadoras de saúde. A aposta envolve R$ 20 milhões em cinco novos centros de distribuição e um mercado estimado em R$ 60 bilhões que não passa pelo varejo tradicional. Mas a mudança real está em quem, de fato, paga a conta.
O dinheiro mudou de lado: quem paga agora?
Segundo o vice-presidente Vilson Schvartzman, a transformação central é a fonte pagadora. Hoje, dificilmente um tratamento de alto custo sai do bolso do paciente. Planos de saúde e o governo assumiram essa fatura, impulsionados por regulamentações que obrigam operadoras a cobrir medicamentos orais, sobretudo oncológicos.
Esse cenário criou a “venda triangular”: a operadora paga, a 4BIO entrega na casa do beneficiário. Os dois centros atuais — em Pernambuco e São Paulo — seguem dedicados a esse modelo B2P (business-to-patient), onde a empresa já detém 25% a 28% de participação.
Cinco novos centros, uma logística cirúrgica
Para atacar o canal B2B (hospitais, clínicas, operadoras), a companhia inaugurou no Rio de Janeiro e prepara unidades no Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Distrito Federal e um segundo polo em São Paulo. Cada centro tem 1.500 a 2.000 m² e estoque de 500 itens, desenhados para entregas programadas e de alta criticidade.
- Investimento total: R$ 20 milhões do caixa do Grupo Profarma.
- Meta: dobrar a fatia de mercado de forma orgânica.
- Origem: a 4BIO foi comprada da RD (Raia Drogasil) por R$ 600 milhões.
Mas o efeito mais relevante aparece no portfólio.
Oncologia e doenças raras: onde está o crescimento
A oncologia responde pela principal linha de receita e cresce entre 12% e 15% ao ano — o dobro do varejo farmacêutico (6% a 7%). Dos lançamentos previstos para os próximos cinco anos, 45% são oncológicos. A meta é que a 4BIO seja reconhecida como distribuidora de tratamento oncológico para clínicas, não apenas para operadoras.
Em vacinas, a aplicação saiu das clínicas e chegou a laboratórios e farmácias, com calendário ampliado para adultos. Já nas doenças raras, a empresa ainda atua pouco, mas mira medicamentos que custam até R$ 4 milhões por ano por paciente. A medicina preventiva também entra no radar como vetor de expansão.
O que observar daqui para frente
A execução do plano orgânico depende da capilaridade dos sete centros e da capacidade de integrar a logística fria e rastreável exigida por hospitais e operadoras. Se a 4BIO conseguir converter a estrutura recém-construída em contratos de longo prazo com redes hospitalares, a participação de mercado pode saltar antes do prazo estimado. Para o executivo que negocia fornecimento ou o investidor que monitora o setor, o sinal está dado: o jogo saiu da farmácia e foi para a beira do leito.
