A semana encurtada pelo feriado de Finados concentra decisões que podem redesenhar o cenário político e econômico do país até o fim do ano. O presidente Lula inicia a montagem do novo ministério enquanto o Banco Central bate o martelo sobre a Selic. No exterior, o teste das urnas americanas promete mexer com o dólar.
O calendário entre 2 e 8 de novembro funciona como um termômetro de riscos: de um lado, a articulação de uma base parlamentar no Congresso; do outro, a definição do custo do dinheiro para empresas e famílias. O que acontecer nos próximos dias dita o ritmo dos investimentos para 2025.
O xadrez da transição e a base no Congresso
Lula passa a semana na Granja do Torto, recuperando-se de uma gripe, mas a agenda política não para. O presidente deve anunciar as primeiras conversas com partidos de centro para costurar a maioria no Legislativo. A dúvida do mercado não é apenas quem assume pastas estratégicas, mas qual o custo político dessa composição para a agenda fiscal.
Aliados derrotados nas urnas de outubro entram na fila para cargos no Executivo. Essa negociação define se o governo terá musculatura para aprovar medidas de arrecadação ou se ficará refém de pautas de custo elevado. Um pronunciamento à nação — ainda sem data — deve tentar baixar a temperatura polarizada, enquanto uma live com o deputado André Janones mira a base digital.
Copom: a decisão que mexe no bolso do investidor
Na quarta-feira (4), sai a penúltima reunião do ano do Comitê de Política Monetária. A taxa básica está em 13,75% ao ano desde o corte de 0,25 ponto em setembro. O mercado está rachado: parte aposta na manutenção para ancorar expectativas de inflação, outra projeta novo afrouxamento diante da desaceleração da atividade.
- Cenário base: Manutenção da Selic em 13,75%.
- Risco altista: Novo corte de 0,25 p.p. se o comunicado sinalizar confiança na desinflação.
- Gatilho externo: Resultado das eleições nos EUA pode forçar revisão de projeções para o câmbio.
O comunicado pós-reunião será lido com lupa: qualquer mudança na linguagem sobre “cautela” ou “vigor” da política monetária move a curva de juros futuros na abertura de quinta.
Segurança Pública e regulação de apostas: o Congresso acelera
Terça-feira (3) reserva a volta da PEC da Segurança Pública ao plenário do Senado. O texto travou na CCJ por conta de emendas que reduzem a maioridade penal. O governo articula para destacar esse ponto e votar o restante — o que inclui a criação de uma Polícia Penal nacional e fundos de financiamento.
No mesmo dia, o STF realiza audiência pública sobre a MP das bets. Na quarta (4), a Corte julga as leis municipais que regulamentam o setor. A definição do marco regulatório tira a névoa jurídica que trava investimentos bilionários em publicidade e tecnologia, mas impõe custos de conformidade imediatos às operadoras.
O fator externo: meio de mandato nos EUA
Enquanto Brasília debate juros e ministérios, 435 cadeiras da Câmara, 35 do Senado e 36 governos estaduais estão em jogo nos Estados Unidos na terça (3). A possibilidade de o Partido Republicano perder a maioria no Congresso altera a equação de política fiscal americana — e, por tabela, a trajetória dos juros globais e o fluxo para emergentes.
Um Congresso dividido costuma travar pacotes de estímulo, o que pode fortalecer o dólar no curto prazo e pressionar a curva de juros longa no Brasil. Investidores devem monitorar a reação dos Treasuries na abertura de quarta.
Agenda densa: Enem, Copa do Brasil e F-1
O calendário não para na economia e política. No domingo (8), milhões de estudantes fazem o primeiro dia do Enem, impacto direto em logística urbana e varejo de papelaria/transporte. No esporte, as semifinais da Copa do Brasil — Atlético-MG x Grêmio (sábado) e Vasco x Palmeiras (domingo) — e o GP de São Paulo de Fórmula 1 em Interlagos movimentam hotelaria, bares e apostas esportivas na capital paulista.
Na sexta (6), a final do Mundial de Futsal (Brasil x Argentina) e a continuação do depoimento sobre a fraude do Banco Master na PF completam a pauta de riscos reputacionais e de compliance para o setor financeiro.
O que observar daqui para frente
A semana fecha com a definição da Selic e os primeiros sinais da composição ministerial. Para o estrategista, o foco deve estar na coerência entre a equipe econômica e a base política: se os nomes indicados para Fazenda e Planejamento tiverem alinhamento com o Centrão, a probabilidade de aprovação de medidas de receita sobe — o que permite ao BC manter juros altos por menos tempo.
Já o desfecho das urnas americanas dita o humor externo. Um cenário de “governo dividido” nos EUA tende a segurar o dólar forte, exigindo mais cautela na exposição a ativos de risco locais. O investidor que ler os sinais desta semana — nomes, votos, juros e urnas — larga na frente no posicionamento para o primeiro trimestre de 2025.
