Justiça

Influenciadora de direita denuncia “caça às bruxas” e MP do Trabalho registra 3.290 casos

Julie Milk, influenciadora de direita, em vídeo denunciando demissões políticas e assédio eleitoral no trabalho
Influenciadora Julie Milk critica onda de demissões por voto em Lula; MPT registra 3.290 denúncias

A jornalista e influenciadora Julie Milk, conhecida por ter apoiado a campanha de Flávio Bolsonaro (PL), rompeu o silêncio e classificou como “fascismo puro” a onda de demissões de funcionários que votaram em Lula (PT) incentivada por aliados políticos e figuras da direita nas redes sociais. A reação expõe uma fratura interna no espectro conservador e coloca holofotes sobre um risco jurídico concreto para empresários.

O Ministério Público do Trabalho (MPT) contabilizou 3.290 denúncias de assédio eleitoral apenas neste pleito. O dado mais alarmante concentra-se no pós-segundo turno: 1.143 registros entraram no sistema entre a noite de domingo (25) e a tarde de quarta-feira (28). O volume atípico em tão curto prazo sinaliza uma ação coordenada de retaliação política no ambiente corporativo.

O que a lei diz sobre demissão por voto

Muitos empregadores ignoram — ou fingem ignorar — que a legislação brasileira veda expressamente práticas discriminatórias na contratação ou manutenção de emprego por motivação política. A Lei 9.029/1995 enquadra a dispensa baseada na preferência partidária do trabalhador como crime, passível de multa e indenização por danos morais na Justiça do Trabalho.

Na prática, isso significa que o “direito de gerir o negócio” não se sobrepõe à liberdade de consciência do empregado. O MPT já abriu procedimentos investigatórios para apurar os casos reportados nas últimas semanas.

O recado de quem estava do “mesmo lado”

Julie Milk não usou meias palavras. Em mensagens enviadas à imprensa e em vídeos publicados em seus perfis, a ex-candidata a deputada federal pelo PSD em São Paulo disse sentir vergonha de ver “amigas fazendo essa caça às bruxas”.

“Um bando de gente rica caçando uma turma que trabalha, que vive do salário”, disparou. Ela ironizou a valentia dos que pediam demissões até o Ministério Público “entrar na parada”, citando mais de dez pedidos de desculpas públicos que surgiram após a pressão judicial.

  • Direita “intelectual” x “balaio”: Milk se autointitulou parte de uma “direita intelectual” e pediu para ser retirada do grupo que apoia a perseguição.
  • Desumanidade sem ideologia: “Transformar divergência política em sentença de desemprego não é defender princípios, é praticar intolerância”, afirmou em outro vídeo.
  • Foco no sustento: A influenciadora destacou a crueldade de quem vive de dinheiro público querer tirar o sustento de quem trabalha.

O efeito imediato: recuo e medo de processo

A menção ao Ministério Público funcionou como freio de arrumação. A influenciadora relatou que, assim que o órgão passou a atuar, “todo mundo botou o rabo entre as pernas”. Advogados trabalhistas confirmam que o custo de uma ação por assédio eleitoral — somado ao dano reputacional — supera em muito qualquer ganho político imaginado pelo empregador.

Mas o efeito mais relevante aparece na cultura organizacional. Empresas que toleram ou incentivam esse tipo de conduta abrem precedentes para processos coletivos e fiscalizações rigorosas do MPT em outras frentes, como saúde mental e ambiente de trabalho.

O que observar daqui para frente

O pico de denúncias nos três dias pós-eleição sugere que a prática foi estimulada por discursos públicos de lideranças políticas e formadores de opinião. A tendência é que o MPT busque responsabilizar não apenas quem assinou a demissão, mas quem incitou a prática.

Para o empresariado, a lição é pragmática: a urina eleitoral passou, a lei permanece. Manter políticas claras de compliance eleitoral e vedar qualquer questionamento sobre voto de subordinados deixa de ser apenas “boas práticas” para virar medida de sobrevivência jurídica. O próximo relatório do MPT deve dimensionar quantas das 3.290 denúncias virarão ações civis públicas — e esse número ditará o tom das relações de trabalho em 2024.