Economia

Petrolíferas lucram US$ 50 bi e ignoram apelo por novas refinarias: entenda o risco

Refinaria de petróleo ao pôr do sol com tubulações e torres de destilação, símbolo de capacidade ociosa
Grandes petroleiras lucram bilhões mas não investem em novo refino, elevando risco de alta nos combustíveis

As cinco maiores petroleiras do Ocidente embolsaram mais de US$ 50 bilhões em lucro líquido no terceiro trimestre, mas desviaram o caixa para recompras de ações e pagamento de dívidas. A capacidade de refino global encolheu 10% desde o início do conflito no Irã, e a conta pode chegar na bomba mais cedo do que se imagina.

Onde o dinheiro realmente está indo

ExxonMobil, Chevron, BP, Shell e TotalEnergies viram suas divisões de refino operarem no limite para capturar margens recordes. A Shell anunciou recompra de US$ 5 bilhões para o trimestre atual; a Exxon travou compromisso de US$ 20 bilhões até 2027; a BP prioriza desalavancagem. Nenhuma aprovou construção de refinaria nova.

O argumento dos CEOs é uníssono: a demanda por combustíveis fósseis deve cair nas próximas décadas, tornando o retorno de um ativo que leva anos para ficar pronto incerto. “Ninguém constrói uma refinaria do zero na Europa ou EUA hoje”, resume Allen Good, analista da Morningstar.

O vazio que ninguém preenche

Enquanto o Ocidente hesita, o mapa do refino muda de endereço. Dados do Federal Reserve Bank de Dallas mostram que, desde 2019, China e Oriente Médio adicionaram 4,4 milhões de barris/dia de capacidade. Europa e América do Norte perderam 2,1 milhões no mesmo período.

  • Nigéria, Índia e México inauguraram plantas recentes.
  • Valero comprou refinaria parada em Houston por US$ 320,5 milhões — plano: religar 165 mil barris/dia até fim de 2027.
  • Phillips 66 foca em midstream (armazenamento e logística), com aportes de “dezenas ou centenas de milhões”, não bilhões.

Cenário de estresse até 2027

A Agência Internacional de Energia projeta escassez estrutural de diesel até 2027. Joe DeLaura, do Rabobank, estima Brent médio a US$ 120 no primeiro semestre do próximo ano e crack spread do diesel em US$ 100/barril. Qualquer escalada no Estreito de Hormuz — onde 20% do petróleo global passa — comprime ainda mais a oferta.

Donald Trump convocou executivos à Casa Branca em setembro cobrando expansão doméstica. O G7 e a UE ecoaram o pedido por segurança energética. A resposta do setor: otimizações incrementais em ativos existentes, sem aportes transformadores.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam o preço na bomba nos próximos 18 meses: taxa de utilização das refinarias ocidentais (hoje perto de 95%), ritmo de entrada das novas unidades asiáticas e risco geopolítico no Golfo. Se um choque de oferta coincidir com manutenção sazonal no Hemisfério Norte, o repasse ao consumidor será imediato e sem colchão de estoque. Empresas de logística e traders de combustível já precificam prêmios de risco elevados para contratos de 2025.