Após as eleições de 2026, a abertura de contas de investimento no exterior explodiu. Na Avenue, o dia 26 de outubro marcou o recorde histórico de cadastros, com captação líquida três a quatro vezes acima da média. O movimento não é isolado: no primeiro turno, a alta chegou a 130% nas aberturas e 8,2 vezes no volume captado.
O que antes era ferramenta de viagem virou estratégia de proteção patrimonial. A mudança de comportamento tem dados concretos e um gatilho tributário que passou despercebido por muitos.
O fim da alocação oportunista
Carlos Ambrósio, sócio da Avenue, resume a transformação: o investidor parou de reagir ao câmbio e começou a aportar de forma recorrente. Não importa se o dólar está a R$ 5,20 ou R$ 5,80 — o fluxo tornou-se contínuo.
Essa disciplina explica por que a base de declarantes de ativos no exterior saltou para 32,4 mil em 2025, o maior nível desde 2020, segundo o Banco Central. Entre pessoas físicas, foram 28,3 mil CPFs, recorde desde 2019.
Mas a comparação exige cuidado. A regra de declaração mudou em 2020: passou a ser obrigatória para quem tem acima de US$ 1 milhão lá fora. Antes, o piso era R$ 100 mil. A série histórica, portanto, não é diretamente comparável.
Plataformas digitais removem a barreira do private banking
Até poucos anos, investir lá fora exigia estrutura de private banking e contas no exterior. Hoje, corretoras e bancos digitais fazem a ponte. Os números mostram a escala:
- Nomad: 500 mil clientes (fim de 2022) → 3,8 milhões (2025); ativos sob custódia acima de R$ 8 bilhões.
- Revolut: base e volume em moeda estrangeira cresceram 200% em 12 meses; 60% dos saldos vão para consumo, 40% para reservas e investimentos.
- C6 Bank: contas globais subiram 44% e volume avançou 32% entre agosto de 2024 e agosto de 2026.
- Bradesco: volume em dólares multiplicou por sete; base de contas cresceu 15 vezes; 80% dos clientes da conta global aplicam em ativos internacionais.
- Santander: alta de 123% nas aberturas e 48% no volume investido, na comparação anual.
- XP: base com exposição internacional cresceu 10 vezes desde 2022; custódia sob gestão quintuplicou; a corretora passou a recomendar alocação mínima de 15% no exterior para todos os perfis.
- Inter: 6 milhões de contas globais no segundo trimestre de 2026; alta de 49% na base PF em 12 meses.
O BTG Pactual destaca outro vetor: a busca por setores inexistentes na B3. A valorização das big techs americanas abriu o apetite para temáticas globais — inteligência artificial, transição energética, saúde — que o mercado local mal representa.
O divisor de águas tributário que ninguém comenta
Bruno Peixoto, sócio da BPTax, aponta para a Lei nº 14.754, de 2023. Ela fixou alíquota única de 15% sobre rendimentos de aplicações financeiras no exterior, apurada na declaração anual de IR. Antes, a tributação era uma colcha de retalhos: fundos fechados, ETFs, ações e renda fixa tinham regras diferentes, prazos distintos e, em alguns casos, cobrança antecipada (come-cotas).
A simplificação tirou o custo de conformidade das costas do investidor comum. Deixou de ser necessário contratar assessoria especializada apenas para entender quanto imposto pagar. Isso, sozinho, explica parte da democratização do acesso.
Conta global não é conta em dólar no Brasil
Um erro frequente: confundir as contas globais ofertadas por Nomad, Avenue, C6, Inter, Nubank (Ultravioleta) e bancos tradicionais com as contas de depósito em moeda estrangeira mantidas no país. As primeiras guardam o dinheiro fora do Brasil, sob legislação e proteção do país de destino (EUA, na maioria dos casos). As segundas são reguladas pelo Banco Central e restritas a situações específicas — como recebimento de exportação ou despesas de bordo.
Essa distinção define o risco de soberania, a tributação sucessória e a proteção contra bloqueios locais. Quem ignora a diferença pode descobrir tarde demais que a “conta em dólar” do banco de varejo não entrega o que a conta global promete.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo nos próximos trimestres: a trajetória da Selic e do câmbio (que alteram o custo de oportunidade de manter reais), a evolução da regra de 15% no Congresso (há propostas de alíquota progressiva) e a capacidade das plataformas de manter a experiência do usuário sem falhas operacionais em momentos de estresse.
Se a alocação recorrente se consolidar como hábito — e não como reação eleitoral —, o Brasil pode estar vivendo a maior mudança estrutural de portfólio desde a popularização dos fundos de investimento nos anos 90. O investidor que entendeu isso primeiro já está posicionado. Os demais ainda estão decidindo se abrem a conta.
