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A bancada do like: como influenciadores hackearam a política e o que vem depois

Três deputados influenciadores Nikolas Ferreira Lucas Pavanato Erika Hilton em tela de smartphone com métricas de engajamento
A "bancada do like": Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Erika Hilton somaram 7,7 milhões de votos via engajamento digital.

Deputados com forte presença digital tiveram 88% de taxa de reeleição em 2026, contra 60% dos com pouca atuação online. O dado, da FGV Comunicação, expõe uma mudança estrutural: o voto agora segue o engajamento.

O fenômeno tem nome — “bancada do like” — e três rostos no topo: Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Erika Hilton somaram 7,7 milhões de votos. Nenhum chegou ao Congresso pela via tradicional.

O método Janones e a cartilha replicável

Em pouco mais de vinte dias, o deputado André Janones estruturou uma operação descentralizada que mobilizou milhões. Grupos de WhatsApp alimentavam redes sociais, que retroalimentavam os grupos. Parecia espontâneo; era coordenado.

Janones gravou vídeos ensinando a base a manipular a lógica algorítmica: amplificar a mensagem, isolar vozes contrárias, forçar tendências. O que agências chamam de SMO (Social Media Optimization) virou, na política, manipulação declarada.

Três semanas bastaram para emular uma estratégia que a direita aperfeiçoava há mais de uma década. A velocidade revela duas coisas: existe uma cartilha e os algoritmos são mais maleáveis do que as plataformas admitem.

Quando o influenciador vira o mandato

Celebridades na política não são novidade — Tiririca, Romário, Alexandre Frota. A diferença é o que acontece depois da posse. No modelo antigo, o eleito sumia nas redes e reaparecia no noticiário político ou policial.

O novo padrão: o influenciador usa o mandato para turbinar o canal pessoal. Alguns não apresentam projetos de lei relevantes; o cargo serve ao capital eleitoral digital. A relação direta com seguidores substitui a mediação institucional.

  • 88% de reeleição para alta presença digital (FGV Comunicação)
  • 60% de reeleição para baixa presença digital
  • 7,7 milhões de votos concentrados nos três mais votados de 2026

O vazio de fiscalização e o risco do mainstream

Quase não há controle sobre quanto da atuação digital serve ao interesse público. O mesmo talento para hackear algoritmos vira ferramenta para pautar debates, inflamar audiências e aprofundar polarização. Bolhas viram mainstream sem passar por crivo editorial.

Se rádio e TV têm regras de isonomia para exposição de políticos, o ambiente digital opera sem paridade. Meta e YouTube testam controles de recomendação e proteções para menores, mas a autorregulação corre atrás da urgência legislativa.

Regulação: armadilha partidária ou debate necessário?

Lula defendeu regular plataformas após a eleição. A campanha dele usou o método Janones no mesmo ecossistema que diz combater. Se o tema virar trincheira ideológica, as máquinas partidárias capturam a agenda e as próximas eleições herdam problemas maiores.

O caminho produtivo exige audiências públicas com especialistas, academia, big techs e sociedade civil. A maioria dos legisladores não compreende a arquitetura de produtos digitais — e, com IA generativa, a assimetria só aumenta.

O que observar daqui para frente

Três vetores definem o curto prazo: projetos de lei sobre transparência algorítmica no Congresso; testes de customização de feed por Meta e YouTube; e a pressão internacional por regras mais duras. Quem entende a engrenagem continua movendo-a a seu favor. A pergunta não é se haverá regulação, mas quem a escreverá — e com quais dados na mesa.