Tecnologia

O segredo da “Bancada do Like”: Como 3 semanas viraram 7,7 milhões de votos

André Janones e símbolos de redes sociais representando a Bancada do Like e estratégia digital que gerou 7,7 milhões de votos
A máquina de engajamento digital que elegeu Lula e formou a Bancada do Like no Congresso em apenas 3 semanas.

A replicação de uma estratégia digital de uma década em apenas vinte dias redefiniu o resultado das urnas e consolidou a “Bancada do Like” no Congresso. O deputado André Janones operou uma máquina de engajamento que não apenas elegeu Lula, mas provou que o algoritmo não é uma caixa-preta intransponível — é uma engrenagem que pode ser girada por quem conhece o manual.

O fenômeno expõe uma vulnerabilidade sistêmica: se grupos organizados conseguem manipular a distribuição de conteúdo em larga escala, a promessa de neutralidade das plataformas ruí. O que está em jogo não é apenas uma eleição, mas a arquitetura do debate público nos próximos ciclos.

O método Janones: da informalidade à engenharia de viralização

Diferente do que a espontaneidade sugere, a atuação do deputado mineiro seguiu um roteiro preciso. Em vídeos diretos aos seguidores, ele explicava como ações nascidas em grupos de mensagens deveriam transbordar para as redes sociais com três objetivos claros: amplificar a mensagem própria, isolar vozes adversárias e forçar a lógica algorítmica a distribuir o conteúdo desejado.

No jargão corporativo, isso se chama Social Media Optimization (SMO). Na arena política, o autor do artigo classifica sem eufemismos: é manipulação coordenada. A novidade não é a tática — usada há mais de dez anos por grupos conservadores —, mas a velocidade com que o campo progressista a assimilou e executou em escala nacional.

Dados que o marketing político não ignora

Um estudo da FGV Comunicação quantificou o poder eleitoral da presença digital. Deputados com alto engajamento nas redes alcançaram 88% de taxa de reeleição, contra 60% dos de baixa presença. A correlação não garante causalidade, mas sinaliza que o capital de atenção virou moeda forte na urna.

O topo da votação para a Câmara em 2026 ilustra o recado:

  • Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Erika Hilton somaram mais de 7,7 milhões de votos;
  • Os três construíram projeção política exclusivamente na atuação digital;
  • Nomes como Tabata Amaral, Mario Frias e Lindbergh Farias também integram o grupo de alta performance online.

Do “Tiririca” ao nativo digital: a mutação do parlamentar-influenciador

Celebridades na política não são novidade — Silvio Santos, Romário e o próprio Tiririca (recordista de votos em 2010) pavimentaram esse caminho. A diferença estrutural é a origem do mandato.

Antigamente, a mídia projetava um personagem que, eleito, migrava para o plenário e perdia espaço no palco midiático. Hoje, o influenciador nasce na rede, acumula audiência em torno de causas, se candidata antes de ter carreira pública e, uma vez eleito, não abandona o canal direto com o seguidor. Muitos mantêm a lógica de engajamento como atividade principal, às vezes sem apresentar um único projeto de lei de interesse coletivo.

O vácuo de fiscalização e o risco da bolha virar mainstream

Como a fama reside no perfil pessoal e a relação com o público é contínua, quase não há controle sobre quanto da atuação digital serve ao mandato e quanto serve ao algoritmo. A mesma habilidade de manipular a distribuição de conteúdo para ganhar visibilidade passa a ser usada para pautar o debate, inflamar audiências e aprofundar fossas ideológicas.

O que era bolha isolada ganha status de agenda nacional sem passar pelo crivo editorial tradicional. Isso exige uma pergunta incômoda: se a TV e o rádio têm regras de isonomia para exposição de políticos, por que o ambiente digital opera sem paridade?

Plataformas sob pressão: o modelo de negócio em xeque

A vulnerabilidade exposta por Janones atinge o cerne do negócio das big techs. Meta e YouTube já testam ferramentas que devolvem ao usuário o controle do feed e restringem contas de menores. Mas a autorregulação corre atrás da urgência legislativa: países avançam para regulações duras enquanto o Congresso brasileiro discute o marco regulatório.

Lula defendeu a regulação das plataformas no discurso da vitória, mas seu próprio triunfo bebeu da mesma fonte que ele critica. O risco real é que o tema vire trincheira partidária — “guerra cultural com verniz ideológico” — e trave qualquer avanço técnico.

O que observar daqui para frente

A solução não virá de likes, dancinhas ou reposts. A maioria dos legisladores desconhece a arquitetura dos produtos digitais e a lógica da IA generativa — justamente quem precisa legislar sobre eles. O caminho produtivo passa por audiências públicas com especialistas, academia, sociedade civil e empresas de tecnologia, fora do calendário eleitoral.

Sem essa ponte entre quem entende o código e quem escreve a lei, a “Bancada do Like” continuará ditando as regras do jogo. E, como diria o deputado mais votado de 2010: pior do que está, pode ficar.