Meio Ambiente

Seca e fogo dizimam abelhas: produção de mel despenca 80% em Roraima

Apiário destruído no lavrado de Roraima: caixas de abelhas abandonadas em vegetação seca e queimada
Caixas de abelhas vazias no lavrado roraimense após seca severa e incêndios que reduziram produção de mel em 80%

A combinação de estiagem severa e incêndios florestais reduziu a produção de mel em até 80% nos apiários de Roraima, forçando apicultores a abandonar caixas e enxames inteiros. O fenômeno atinge em cheio a economia do lavrado, vegetação nativa que cobre boa parte do estado e serve de base para a apicultura local. O que resta saber é se a cadeia produtiva conseguirá se recuperar antes do próximo ciclo de floração.

O colapso nos apiários do lavrado

Na zona rural de Boa Vista, José Pinheiro viu sua colheita cair de cinco toneladas para apenas uma tonelada por safra. A explicação é direta: sem chuva, não há floração; sem flores, não há néctar nem pólen. As abelhas ou morrem ou migram para regiões mais úmidas, esvaziando as caixas de captação.

O lavrado, com sua vegetação seca e rala, funciona como combustível natural. Um único escapamento de veículo basta para iniciar um incêndio incontrolável — foi o que ocorreu na propriedade de Anderson Freitas, onde 200 hectares foram consumidos, levando 20 caixas de abelhas, um veículo e uma carretinha.

Números que expõem a gravidade

  • Queda de 80% na produção de mel relatada por apicultores da região
  • 360 focos de calor registrados apenas em outubro
  • Próximo do recorde histórico de 400 focos (outubro de 2023)
  • R$ 12 mil perdidos por um único agricultor na cultura de tomate
  • Três municípios (Iracema, Cantá, Normandia) em situação de emergência

O efeito cascata na agricultura

O prejuízo não se limita ao mel. Agricultores que dependem de irrigação veem roças de tomate, milho e couve secarem no campo. Carlos Pereira, produtor de tomate, admite que paralisará a atividade se o verão se estender por mais cinco ou seis meses. A polinização natural — serviço ecossistêmico prestado pelas abelhas — também está comprometida, o que deve impactar safras futuras.

Resposta do poder público e cenário climático

Em setembro, o governo estadual decretou situação de emergência e criou gabinete de crise. A Defesa Civil distribui kits de combate, ferramentas e bombas abafadoras, enquanto orienta produtores a evitar o uso do fogo na limpeza de terrenos. O alerta máximo, porém, vem da meteorologia: a previsão de um El Niño mais intenso entre novembro e dezembro sinaliza que a estiagem deve se agravar antes de melhorar.

O que observar nos próximos meses

A recuperação dos enxames depende do retorno das chuvas e da recomposição da flora nativa — processo que não ocorre de uma estação para outra. Investidores e compradores de mel devem monitorar: (1) a extensão real da mortalidade de abelhas rainhas, (2) a capacidade de reposição de colmeias pelos apicultores sobreviventes e (3) o comportamento dos preços no atacado, que tendem a subir com a oferta restrita. Para o agronegócio local, a lição imediata é a necessidade de planos de contingência hídrica e de barreiras físicas contra incêndio nas áreas de lavrado.