Justiça

STF ouve só quem lucra com bets: onde estão as famílias que perdem tudo?

Plenário do STF com gavel e logos de bets e clubes de futebol, simbolizando audiência desequilibrada sobre apostas online
STF ouve 28 representantes do setor de apostas e futebol, mas nenhuma entidade de saúde ou defesa do consumidor

O Supremo Tribunal Federal marca para 3 de novembro uma audiência pública que pode definir o futuro das apostas online no Brasil. A lista de 28 convidados expõe um desequilíbrio gritante: clubes de futebol, federações esportivas, associações do setor de apostas e emissoras que veiculavam a publicidade. Não há uma única entidade de saúde pública, defesa do consumidor ou proteção à infância.

Quem vai dar voz a quem perde dinheiro — e, muitas vezes, a paz dentro de casa — enquanto o debate gira em torno de receitas e patrocínios?

O que a pesquisa revelou sobre o rosto invisível do vício

Em julho, o estúdio CLARICE divulgou o estudo Mulheres & Bets. Foram mais de 2 mil entrevistas em todo o país e 60 conversas em profundidade com mulheres das classes C, D e E. O retrato que emerge foge completamente das planilhas de arrecadação.

Quatro em cada dez brasileiras já apostaram. A maioria não sonha com prêmio milionário: joga para pagar a conta de luz, comprar material escolar, fazer o bolo de aniversário do filho. Quando o dinheiro acaba, a falta atinge a despensa.

“Às vezes não tem um grão de comida dentro de casa porque a pessoa jogou”, relatou uma mulher de 24 anos, na Bahia.

O impacto transborda para quem não aposta. Entre mulheres que convivem com apostadores:

  • 14% deixaram de pagar contas da casa
  • 25% relatam brigas e perda de confiança
  • 23% dos brasileiros conhecem ou presenciaram violência familiar ligada a apostas

Verogha impede a busca por ajuda: 65% das que quiseram parar e não conseguiram citaram a vergonha como barreira.

A opinião pública virou — e os números explicam por quê

Em julho, 62% das mulheres apoiavam a proibição das casas de apostas, contra 50% dos homens. Três meses depois, com a medida provisória já em vigor, o Datafolha registrou 78% de apoio em todo o país — alta de 13 pontos percentuais em relação a novembro de 2024.

O tema saiu das páginas de economia e entrou na mesa de jantar. Deixou de ser “regulação de mercado” para ser tratado como questão de saúde mental, proteção à infância e estrutura familiar.

A conta que não fecha: patrocínio vs. prejuízo das famílias

O argumento econômico merece ser ouvido por inteiro. Em 2025, os clubes da Série A receberam cerca de R$ 1 bilhão em patrocínios de bets — o equivalente a 7% de suas receitas totais. No mesmo período, os apostadores perderam R$ 37 bilhões nas plataformas.

O que o futebol embolsou representa menos de 3% do que as famílias deixaram nas mesas virtuais.

Arrecadação bilionária, repasse milionário, custo trilionário

A arrecadação de impostos costuma ser o trunfo dos defensores da liberação. Entre fevereiro e setembro de 2025, o setor recolheu R$ 6,8 bilhões em tributos e destinações federais, segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS).

A lei reserva ao Ministério da Saúde 1% da parcela destinada a políticas públicas. Até agosto, haviam chegado à pasta cerca de R$ 33 milhões.

O mesmo IEPS estima em pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano os custos de saúde associados a jogos e apostas. A conta é paga pelo SUS e pelas famílias. Para cada real que chega à saúde, o sistema gasta quase mil.

Audiência parcial interessa a quem?

A própria Advocacia-Geral da União reconheceu o desequilíbrio e pediu a ampliação da lista, sugerindo a inclusão do Idec, do Dieese e da CNBB. Trinta e nove entidades da sociedade civil — entre elas a CLARICE — escreveram ao ministro Luiz Fux solicitando representação equânime.

Até o momento, a lista foi ampliada apenas para incluir o Comitê Olímpico do Brasil e o Ministério do Esporte.

Uma audiência pública serve para instruir uma decisão. Quando ela escuta só quem perde receita com a proibição, a pergunta fica no ar: a serviço de quem ela está?

O que observar daqui para frente

A medida provisória segue para o Congresso Nacional, onde o debate deve ocorrer com tempo, dados e todas as vozes. Até lá, a proibição precisa ser mantida. Suspendê-la antes de ouvir as famílias seria decidir primeiro e escutar depois.

As mulheres brasileiras já estão agindo: confrontam, negociam dívidas, tomam celulares, procuram redes de apoio, vigiam portas de quartos. Elas sabem o que querem. A terça-feira no STF vai mostrar se as instituições estão dispostas a ouvi-las — ou se o Brasil continuará pagando uma conta que só cresce.