Economia

Cidade de 100 anos para no tempo após tarifa de 50%: “Vai virar cidade fantasma”

Fábrica de papel paralisada em Témiscaming Quebec com placas de vende-se nas ruas
Fábrica fechada em Témiscaming: tarifa de 50% dos EUA transforma cidade em fantasma

A fábrica que sustenta Témiscaming, no Quebec, paralisou as atividades por tempo indeterminado após os EUA imporem tarifas de 50% sobre produtos de madeira e papel. Dos 360 funcionários, a maioria está em casa sobrevivendo com auxílio parcial do governo canadense enquanto o valor dos imóveis desaba e placas de “Vende-se” tomam conta das ruas.

O fechamento não é apenas uma estatística trabalhista. Para Nadine Suley, moradora e funcionária, a unidade representa “nossa casa, não apenas um emprego”. O prefeito Alain Gauthier classifica a medida americana como “uma bomba destinada a acabar com nossa produção industrial”.

O motor que parou de girar

Há mais de um século, a fábrica de celulose e papel moldou a geografia e a economia local. A cidade cresceu em torno do moinho e das florestas de pinheiros, bétulas e abetos. Cerca de 75% da produção — papelão para embalagens de congelados e bilhetes de loteria instantânea — seguia para o mercado americano.

Em outubro, a proprietária RYAM (Rayonier Advanced Materials), empresa americana que adquiriu a unidade em 2017, decretou “paralisação por razões econômicas”. A justificativa: as tarifas tornaram a operação inviável. O programa federal de alívio tarifário cobre parte dos salários, mas não resolve a raiz do problema.

Efeito dominó na economia regional

O impacto extrapola os portões da fábrica. Um empreiteiro local já demitiu 13 trabalhadores. Serrarias e transportadoras da região sentem o baque. O temor é que profissionais essenciais — médicos, comerciantes, professores — deixem a cidade, acelerando o colapso.

Ronnie Raymond, de família com gerações na fábrica, resume o cenário: “Se a fábrica fechar, a cidade vira cidade fantasma. Não vai sobrar nada, absolutamente nada”.

O precedente de 1973 e a aposta na recompra

Não é a primeira vez que Témiscaming enfrenta a extinção. Em 1973, trabalhadores e gestores se uniram, compraram a fábrica e criaram a Tembec, gigante quebequense com operações na América do Norte e França. Frank Dottori, engenheiro na época e depois CEO, liderou o movimento após aceitar corte de 10% nos salários.

Agora, o sindicato tenta repetir a façanha. Stéphane Lefebvre, líder sindical de terceira geração na fábrica, diz: “Esperamos que o raio caia duas vezes no mesmo lugar”. Mas alerta: sem apoio substancial de Ottawa e Quebec City — seja via alívio tarifário ou capital direto —, a recompra é improvável.

Onde está o dinheiro federal?

Críticas apontam disparidade no socorro. Em março, o governo Carney anunciou quase C$ 9 bilhões para siderurgia e automóveis em Ontário. Para o setor florestal em áreas remotas, o pacote somou C$ 400 milhões.

Sébastien Lemire, deputado do Bloc Québécois pela região, diz estar “muito preocupado e apreensivo” com a falta de ação proporcional. O gabinete da ministra Mélanie Joly afirma que o governo “trabalha ativamente com todas as partes para uma solução viável”.

O relógio do inverno corre contra a fábrica

Equipamentos parados em temperaturas negativas correm risco de danos permanentes, o que encareceria ou impediria a reabertura. Trabalhadores depositam esperança nas eleições de meio de mandato nos EUA — a senadora republicana Susan Collins já conseguiu suspender algumas tarifas, mas não as que atingem Témiscaming.

Enquanto isso, Lefebvre usa termo de hóquei para definir o momento: “Estamos no jogo 7 agora. Vamos jogar até o apito final”.

O que observar nas próximas semanas

  • Negociação da recompra: avanço da coalizão local para adquirir ativos da RYAM.
  • Medidas federais: anúncio de crédito específico ou tarifa retaliatória sobre papelão americano, como pede o prefeito.
  • Clima: chegada do inverno rigoroso no norte do Quebec — prazo duro para reativação.
  • Política EUA: desdobramentos eleitorais que possam flexibilizar tarifas setoriais.

A sobrevivência de Témiscaming teste a capacidade do Canadá de proteger economias regionais expostas a decisões unilaterais do maior parceiro comercial. O desfecho dirá se a história de 1973 se repete como farsa ou como lição aplicada.