A estreia do filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, transformou-se em um enigma jurídico e financeiro. A previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2027 está suspensa, enquanto a Polícia Federal disseca a origem de cada real investido na produção. A distributora Europa Filmes avalia até mesmo pular os cinemas e ir direto para o streaming para escapar de bloqueios judiciais.
Mas a mudança de rota não resolve o nó central: para onde foi o dinheiro?
O pivô para o streaming e o medo do bloqueio
A equipe do longa estuda lançar a obra diretamente em plataformas de streaming, dispensando a autorização da Ancine. A manobra é defensiva: a distribuidora teme que eventuais receitas de bilheteria sejam arrestadas pela Justiça enquanto a liquidação do Banco Master não é concluída.
Um integrante do governo Lula que acompanha o caso confirmou a brecha regulatória: como os serviços de streaming ainda não foram incluídos na legislação setorial em tramitação no Congresso, uma plataforma — brasileira ou estrangeira — pode ofertar o filme sem as amarras atuais do cinema nacional.
A rota do dinheiro: Havengate, Vorcaro e o exílio de Eduardo
O caso ganhou contornos criminais em maio, após o Intercept Brasil divulgar áudios nos quais o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) cobra repasses a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O episódio abriu inquérito no STF para apurar corrupção, evasão de divisas e lavagem de capitais envolvendo Flávio e o irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
A PF investiga se recursos enviados por Vorcaro ao fundo Havengate — administrado por um advogado próximo a Eduardo — financiaram a permanência do ex-deputado nos Estados Unidos. Paralelamente, peritos analisam mais de 20 mil páginas de contratos de câmbio, notas fiscais e recibos da produtora Go Up Entertainment.
O orçamento que foge ao padrão de mercado
A perícia contratada pela própria Go Up apontou custo total de US$ 13,39 milhões (cerca de R$ 75,1 milhões na cotação da época). Os números, porém, levantam bandeiras vermelhas imediatas para quem conhece a indústria audiovisual:
- Geografia invertida: 72% das despesas ocorreram nos Estados Unidos, embora as filmagens tenham acontecido integralmente no Brasil.
- “Soft production” inflada: US$ 2,68 milhões (20% do orçamento) foram alocados nessa rubrica; o mercado costuma destinar entre 3% e 5%.
- Projeção irreal: O plano de negócios previa bilheteria de até US$ 100 milhões — mais de três vezes o recorde nacional de “Minha Mãe é uma Peça 3” (cerca de US$ 30 milhões).
O foco agora recai sobre o fluxo de US$ 12,3 milhões depositados no exterior por Antônio Carlos Freixo Junior, o “Mineiro”, a pedido de Vorcaro, com destino ao Havengate. A perícia oficial deve cruzar essas entradas com os gastos declarados pela produtora e as ordens de pagamento de câmbio.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão o destino do projeto nos próximos meses: a conclusão do laudo pericial da PF sobre os contratos da Go Up, o desfecho da liquidação extrajudicial do Banco Master — que pode congelar ativos futuros do filme — e a votação do marco regulatório do streaming no Congresso.
Se a perícia confirmar desvios de finalidade nos repasses ou superfaturamento comprovado nas rubricas atípicas, o longa pode se tornar um ativo judicial indisponível por anos. Para investidores e players do setor, o caso virou estudo de caso sobre os riscos de financiamento privado opaco em produções de temática sensível.
