A fundação do Senna Tower, futuro residencial mais alto do mundo em Balneário Camboriú (SC), foi concluída em tempo recorde, mas a engenheira Stéphane Domeneghini avisa: o maior entrave não é a geologia, é a matemática financeira brasileira. Como erguer um supertall com normas europeias, horários de canteiro restritos e orçamento de mercado emergente? A resposta explica por que a torre levará oito anos para ficar de pé.
O ano invisível e a fundação recorde
No primeiro aniversário do canteiro, o que se via eram tapumes e lama. A sensação de paralisia, porém, esconde um feito técnico: 800 estacas cravadas em três meses, 20% mais rápido que o cronograma. O plano original previa cem estacas de grande diâmetro, importadas da tecnologia padrão global. A realidade do subsolo catarinense — um gnaisse de dureza extrema — forçou a troca por estacas menores e mais numerosas, elevando a segurança sem reduzir custos.
Sete estacas não atingiram a profundidade projetada de 40 metros, parando nos 30 metros. A reanálise estrutural confirmou a viabilidade, mas o episódio expôs o abismo entre o projeto de gabinete e a execução local. Hoje, a equipe avança na parede diafragma, barreira essencial para conter o lençol freático agressivo que transforma o solo em barro e ameaça a vizinhança se bombeado de forma bruta.
A rocha que quebrou o projeto importado
O ponto de virada veio na fase de orçamento das brocas diamantadas. Perfurar o gnaisse exigia equipamentos que só existem nos EUA ou na China, com custo estimado em US$ 70 milhões — um “experimento” de risco altíssimo e mão de obra inexistente no país. A solução não foi comprar a máquina, mas redesenhar a fundação inteira.
Foram quatro anos de testes de campo, algo atípico para a construção civil convencional. “A lógica de pegar a consultoria de fora e simplesmente colar aqui não funciona”, resume Domeneghini. O caso virou estudo de caso sobre a adaptação forçada de tecnologia global ao solo e à indústria nacionais.
Mão de obra: o gargalo que virou estratégia
A escassez de pedreiros e profissionais de ofícios tradicionais empurrou a construtora para a industrialização forçada. A saída encontrada foi transformar fornecedores em extensão da equipe própria:
- Treinamento contínuo in loco e missões técnicas ao exterior;
- Substituição de sistemas artesanais por formas e vedações industrializadas;
- Foco em produtividade para compensar a janela curta de trabalho.
Paradoxalmente, Domeneghini aponta que o programa Minha Casa, Minha Vida hoje opera com industrialização mais avançada que o segmento de médio e alto padrão, onde ainda impera o desperdício oculto de concreto e aço por falta de projeto bem investido.
O abismo entre a norma europeia e o relógio brasileiro
Esta é a conta que não fecha. O Senna Tower vende metros quadrados a preços sul-americanos, mas precisa atender a normas de segurança e exigência de desempenho europeias. Nos canteiros de Dubai, a estrutura sobe 24 horas por dia; em Nova York, até as 21h; na China, turnos noturnos são padrão. Em Balneário Camboriú, a lei limita a atividade das 7h às 18h.
Some-se a isso a volatilidade cambial, política e a ausência de subsídios ou incentivos fiscais comuns em outros polos globais. O resultado é um prazo total de oito anos — o dobro do praticado em mercados com regulação mais flexível — para entregar um ativo de classe mundial.
Mulheres na engenharia: a liderança que não encontra sucessora
Presidente do capítulo Brasil do Council on Vertical Urbanism (CVU) desde 2026, Domeneghini é uma exceção estatística. Em negociações de alto nível pelo país, raramente encontra mulheres do outro lado da mesa. O ambiente, descreve, permanece machista, de altíssima pressão intelectual e incompatível com a maternidade sem custos pessoais severos.
Ela admite ter pensado em desistir várias vezes e não visualiza uma sucessora imediata com a mesma resiliência. “Em algum momento elas optam pela maternidade ou por uma vida mais equilibrada. Eu as entendo”, diz. A constatação expõe um gargalo de talentos que a indústria ignora ao não criar trilhas de permanência para lideranças femininas.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se o Senna Tower vira referência global ou caso isolado: a capacidade da indústria nacional de internalizar a industrialização sem depender de importações caras; a eventual flexibilização de horários de obra em áreas de adensamento vertical; e a entrada de capital de longo prazo disposto a remunerar o risco regulatório brasileiro. Se o “topo da exigência” continuar pagando “a base da base”, o próximo supertall pode nem sair do papel.
