Um novo livro mapeia uma transição silenciosa e brutal: a inteligência artificial está derrubando os degraus de entrada do mercado de trabalho enquanto impulsiona a produtividade no topo. A obra “Trabalho e Emprego Onde?”, organizada por Fabio Giambiagi, Letícia Magalhães e Paulo Faveret, expõe como a automação cria abismos entre setores e gerações.
O cenário não é de destruição uniforme, mas de assimetria profunda. De um lado, o agronegócio troca braço por cérebro e dobra a renda média. Do outro, escritórios e órgãos públicos veem as vagas de nível júnior evaporarem, travando a formação da próxima liderança.
O agro virou laboratório de alta produtividade
Os números do campo assustam e impressionam na mesma proporção. Entre 2012 e 2025, o contingente de trabalhadores diretos na agricultura caiu 23,8% — saíram 2,4 milhões de postos. No mesmo período, a produtividade por hora explodiu 444%, saltando de R$ 7,50 para R$ 40,80.
A contrapartida exige diploma: a contratação de profissionais com ensino superior no setor cresceu 107,6%. Isso puxou o rendimento médio real para cima em 33%. O campo, hoje, paga melhor, mas exige muito mais escolaridade.
- Trabalhadores diretos (2012): 10,2 milhões
- Trabalhadores diretos (2025): 7,8 milhões
- Produtividade/hora (1995): R$ 7,50
- Produtividade/hora (2024): R$ 40,80
- Crescimento de vagas com ensino superior: 107,6%
O especialista Felippe Serigati resume o momento como “uma sala escura cheia de objetos”: a IA na lavoura ainda engatinha, concentrada em gestão e comércio, mas a automação mecânica já redesenhou o mapa social do interior.
O efeito transborda para as cidades vizinhas
O dinamismo não fica na porteira. Nos clusters do agronegócio, a taxa de desocupação desabou para 5,1% em 2025. O setor de serviços nas regiões próximas absorveu a demanda, alcançando 53,4 milhões de ocupados. A riqueza gerada no campo vaza para o comércio, saúde e educação das cidades médias.
Mas a ponte para o futuro tem pedágio: quem não tem qualificação técnica ou superior fica à margem desse ciclo virtuoso.
O gargalo invisível nos escritórios e no Estado
Se no campo a máquina substitui o braçal, no mundo corporativo e na administração pública ela mira o “trabalho do conhecimento” de entrada. Relatórios, minutas, análises preliminares — tarefas que formavam o júnior — agora rodam em segundos nos algoritmos generativos.
O resultado é um gargalo perigoso: a escada de carreira quebrou no primeiro degrau. Cargos seniores seguem valorizados, mas exigem do novato competências que antes levavam anos para desenvolver: pensamento sistêmico, julgamento crítico e liderança imediata.
Serviço público: o encolhimento silencioso
Na máquina estatal, o diagnóstico é cirúrgico. Cerca de 104 mil cargos federais — 20% do total — têm alta propensão à automação. A vulnerabilidade máxima está em suporte à saúde, educação e rotinas administrativas.
Como a estabilidade veda demissões, o enxugamento virá pelo attrition: não se repõem aposentadorias. O risco maior, porém, é o déficit de talento digital. A idade média do servidor beira os 50 anos. Migrar para a “governança algorítmica” sem renovação de quadros é receita para obsolescência.
Lá fora, a capacitação virou questão de segurança nacional
No cenário global, analisado por Marcello Pio e Rodrigo Mendes Leal, a IA não age sozinha. Ela se soma à transição verde e às tensões geopolíticas, forçando governos a tratarem requalificação e regulação como prioridades de defesa. Não é mais política social; é estratégia de sobrevivência econômica.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o ritmo dessa transição nos próximos trimestres: a velocidade de adoção de IA generativa em processos centrais das grandes corporações, a capacidade do sistema educacional — técnico e superior — de formar perfis “híbridos” (domínio técnico + soft skills) e a disposição do setor público para romper a inércia de reposição zero e criar carreiras de Estado nativas digitais. Quem monitorar esses vetores antecipa onde estarão os empregos — e os salários — de 2030.
