A 17ª Conferência das Partes (COP17) da Convenção sobre Diversidade Biológica encerra-se hoje na Armênia com um veredito preocupante: menos da metade das metas nacionais alinhadas aos compromissos globais para 2030 estão no caminho certo. O documento final, ainda em negociação, expõe uma lacuna perigosa entre promessas e execução.
Para empresários e investidores, o sinal é claro: a pressão regulatória e a exigência de transparência sobre impactos na natureza tendem a aumentar, não diminuir. O que está travando o avanço e onde estão as oportunidades?
O diagnóstico: dados faltantes e metas paradas
Os 192 países signatários entregaram relatórios nacionais com “muitas lacunas”, segundo o secretariado da convenção. A capacidade de monitoramento interna é frágil, o que dificulta até mesmo medir o fracasso ou o sucesso.
Das 23 metas globais do Marco de Kunming-Montreal, o balanço é negativo. A conectividade de áreas protegidas — bandeira defendida pelo Brasil via corredores verdes e azuis — figura entre as de menor avanço. O mesmo vale para o controle de espécies exóticas invasoras e a redução de desperdício de alimentos.
Onde houve avanço (e onde o dinheiro parou)
Nem tudo é retrocesso. Houve progresso na prevenção de extinções, no manejo sustentável de fauna com benefício social e na aplicação de Soluções Baseadas na Natureza contra as mudanças climáticas. Práticas sustentáveis em agricultura, pesca e silvicultura também avançaram.
Mas o financiamento trava. O texto destaca “poucos avanços” na mobilização de incentivos privados e na eliminação de subsídios nocivos. A meta é US$ 200 bilhões/ano até 2030; a realidade de 2025 gira entre US$ 7,9 e US$ 92,4 bilhões.
- Meta pública internacional: US$ 30 bi/ano.
- Anunciado em Yerevan (GBFF): US$ 60 milhões.
- Novo ciclo GEF-9: ~US$ 4,4 milhões.
Valores considerados “mestosos” por especialistas como Caroline Rocha, da LACLIMA. A conta só fecha se o debate sair dos fundos tradicionais e migrar para redirecionamento de subsídios (US$ 500 bi), capital privado e instrumentos multilaterais.
O risco invisível para o setor privado
Uma das metas mais atrasadas exige que grandes empresas e instituições financeiras divulguem riscos e impactos sobre a biodiversidade. O atraso global não significa anistia; significa que a regulação virá mais dura e padronizada quando sair.
Países em desenvolvimento e atores não-governamentais (indígenas, comunidades locais, mulheres, jovens) relatam escassez absoluta de recursos para implementação. Isso pressiona por mecanismos de financiamento inovadores — biodiversity credits, blended finance, seguros paramétricos — que ainda engatinham.
O que observar daqui para frente
A entrada de economias como a China na lista de doadores internacionais e a diversificação de ferramentas financeiras são os gatilhos para fechar a lacuna. O desenho do Marco Global já prevê que a maior fatia do esforço venha do corte de subsídios prejudiciais.
Para quem decide alocação de capital ou estratégia corporativa, a leitura é pragmática: a transição para uma economia “nature-positive” deixou de ser agenda de ONG e virou variável de risco sistêmico e conformidade. Monitorar a regulamentação de divulgação de impactos (TNFD) e a precificação de externalidades negativas deixou de ser opcional — é questão de valuation.
