Meio Ambiente

Pesca liberada na foz do Rio Doce após 10 anos: o que muda agora

Foz do Rio Doce no Espírito Santo com barcos de pesca artesanal liberados após 10 anos de proibição
Pesca artesanal e profissional autorizada na foz do Rio Doce após década de interdição por contaminação.

Após uma década de proibição, a pesca profissional e artesanal voltou a ser autorizada na área marinha próxima à foz do Rio Doce, entre os municípios de Aracruz e Linhares, no Espírito Santo. A medida, assinada conjuntamente pelos ministérios da Pesca e Aquicultura (MPA) e do Meio Ambiente (MMA), baseia-se em nota técnica da Anvisa que atesta a segurança do consumo dos pescados da região.

Mas a liberação vem com regras rígidas e um plano de monitoramento contínuo. Entenda o que isso significa para a economia local e para a reparação do maior desastre ambiental do Brasil.

Por que a pesca ficou proibida por dez anos

A suspensão ocorreu em 2016, por decisão judicial atendendo a pedido do Ministério Público Federal. O rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em novembro de 2015, lançou entre 40 e 55 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro na Bacia do Rio Doce.

Na época, não existiam estudos conclusivos sobre a contaminação de peixes, moluscos e crustáceos. A Justiça optou pelo princípio da precaução: sem dados seguros, a atividade deveria permanecer paralisada.

O que a ciência diz agora

A nota técnica da Anvisa, fundamentada no Programa de Monitoramento Quali-quantitativo Sistemático de Água e Sedimento (PMQQS), traz números concretos:

  • Chumbo e mercúrio: ausência acima dos limites máximos tolerados por normas nacionais e internacionais
  • Cobre, cromo, ferro, níquel, manganês e zinco: concentrações dentro da média esperada
  • Água e sedimentos: monitoramento contínuo sem alertas de não conformidade

Os dados abrangem três ecossistemas: dulcícola (água doce), marinho e de mangue.

Regras para a retomada: o que pescadores precisam saber

A Portaria nº 75/2026 estabelece condições claras para o exercício da atividade:

  • Pescadores e embarcações devem estar devidamente regularizados
  • Períodos de defeso e áreas de restrição continuam valendo
  • Tamanhos mínimos de captura e espécies protegidas devem ser respeitados
  • Equipamentos e modalidades permitidas seguem a legislação vigente
  • Medidas para reduzir captura incidental são obrigatórias

O Programa de Transferência de Renda (PTR), pago às famílias afetadas pelo desastre, não será alterado pela reabertura da pesca.

Monitoramento integrado: como será a fiscalização

A retomada será acompanhada por um Plano de Ação Integrado coordenado pelo MPA e MMA, com participação do Ministério da Saúde, Anvisa e instâncias de gestão participativa. O plano prevê:

  • Implementação gradual da atividade
  • Monitoramento contínuo de indicadores ambientais e sanitários
  • Avaliação periódica com possibilidade de atualização das regras
  • Participação ativa das comunidades pesqueiras nas decisões

Órgãos competentes farão a fiscalização direta nas áreas liberadas.

Reparação continua: liberação não encerra obrigações

O MPA deixou explícito: a autorização para pescar não substitui nem afasta as obrigações de reparação, recuperação e monitoramento previstas no acordo judicial do rompimento. A Samarco e suas controladoras seguem responsáveis pela reparação integral dos danos.

Dezenove pessoas morreram no desastre. Os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo foram soterrados. Mais de 19 cidades já aderiram a acordos de reparação adicionais nos últimos meses.

O que observar nos próximos meses

Três pontos merecem atenção de investidores, gestores públicos e lideranças comunitárias:

  • Primeiros relatórios do Plano de Ação Integrado: vão indicar se a retomada ocorre sem riscos sanitários ou pressão excessiva sobre os estoques pesqueiros
  • Reação do mercado: a aceitação comercial dos pescados da região será teste decisivo para a renda dos pescadores
  • Possíveis ajustes na portaria: o monitoramento contínuo pode levar a mudanças nas regras de captura, áreas ou espécies permitidas

A liberação marca um marco simbólico e econômico para a foz do Rio Doce. Mas a prova real — a sustentabilidade da atividade e a confiança do consumidor — será construída dia a dia, nas redes, nos laboratórios e nas mesas de negociação.