Meio Ambiente

Pesca na foz do Rio Doce liberada após 10 anos: o que a Anvisa encontrou

Foz do Rio Doce no Espírito Santo com barcos de pesca profissional liberados após 10 anos de veto
Pesca profissional autorizada na foz do Rio Doce após nota técnica da Anvisa afastar risco à saúde

Após uma década de veto total, a pesca profissional voltou a ser permitida na área marinha da foz do Rio Doce, entre Aracruz e Linhares, no Espírito Santo. A decisão conjunta dos ministérios da Pesca e do Meio Ambiente baseia-se em nota técnica da Anvisa que afastou risco ao consumo humano. Mas o que exatamente mudou nos parâmetros de contaminação para justificar a liberação agora?

A Portaria nº 75/2026, publicada em outubro de 2026, autoriza a atividade para pescadores e embarcações regularizados. O Programa de Transferência de Renda (PTR) segue inalterado. Regras de defeso, tamanhos mínimos, espécies protegidas e equipamentos permitidos continuam valendo — a fiscalização cabe aos órgãos competentes.

O impacto direto para quem vive da pesca

Cerca de 10 anos sem renda direta da captura na região. A liberação permite que pescadores artesanais e industriais voltem a comercializar pescado da área, desde que cumpram as normas vigentes. O ordenamento não mexe no PTR, mas exige cadastro ativo e embarcações em dia com a legislação.

Um Plano de Ação Integrado, coordenado por MPA e MMA com participação do Ministério da Saúde, Anvisa e instâncias participativas, monitorará a retomada. O plano prevê revisões periódicas com base em dados científicos e retorno das comunidades.

Por que a justiça barrou a pesca em 2016

A suspensão veio de decisão judicial atendendo ao MPF, que apontava ausência de estudos conclusivos sobre contaminação por rejeitos da barragem de Fundão, em Mariana (MG). O rompimento, em 5 de novembro de 2015, lançou 40 a 55 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro na Bacia do Rio Doce.

Os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo foram soterrados. Dezenove pessoas morreram. Desde então, a pesca permaneceu interditada por tempo indeterminado, à espera de evidências técnicas robustas.

O que a nota técnica da Anvisa realmente diz

O documento analisou monitoramentos em três ambientes: dulcícola, marinho e de mangue. Os resultados mostram:

  • Chumbo e mercúrio: abaixo dos limites máximos tolerados por normas nacionais e internacionais;
  • Cobre, cromo, ferro, níquel, manganês e zinco: concentrações dentro da média histórica;
  • Água e sedimentos: monitorados continuamente pelo PMQQS, sem alertas de não conformidade.

Esses dados fundamentaram a revogação do veto. A liberação, porém, não extingue obrigações de reparação e monitoramento previstas no acordo judicial do desastre.

O que observar daqui para frente

O Plano de Ação Integrado prevê atualizações baseadas em novos ciclos de monitoramento e participação das comunidades pesqueiras. Pescadores e investidores devem acompanhar os relatórios do PMQQS e eventuais revisões da portaria. A regularidade cadastral e o respeito aos períodos de defeso continuam sendo condições sine qua non para operar na região. A reabertura é um marco, mas a vigilância sanitária e ambiental permanece ativa — e pode mudar o cenário novamente se indicadores saírem do padrão.