Yerevan encerra a COP17 com um veredito duro: o planeta não está no caminho certo para frear a perda de natureza até 2030. Menos da metade das metas nacionais alinhadas ao acordo global mostra progresso real. A conta para virar o jogo passa de US$ 200 bilhões por ano — e o dinheiro simplesmente não aparece.
O diagnóstico que ninguém quer ler
A primeira revisão do Marco Global de Kunming-Montreal expôs a crueza dos números. Dos 192 signatários, a maioria entregou relatórios com lacunas graves de monitoramento. O documento final, ainda em negociação nas últimas horas, admite que indicadores para as 23 metas de 2030 estão no vermelho.
“Menos da metade das metas nacionais relacionadas a qualquer meta global estavam em vias de ser alcançadas”, crava o texto do secretariado. Para quem gere risco ou capital, isso sinaliza pressão regulatória crescente e volatilidade em cadeias dependentes de serviços ecossistêmicos.
Onde houve sinal verde (e onde o dinheiro já flui)
Não é tudo catástrofe. O balanço aponta avanços concretos em frentes que já atraem capital privado:
- Contenção de extinções e manejo sustentável de fauna com inclusão social;
- Soluções Baseadas na Natureza (SbN) para adaptação climática;
- Práticas sustentáveis em agricultura, pesca, aquicultura e silvicultura.
Setores que já internalizaram esses vetores colhem prêmios de risco menor e acesso a linhas de crédito verde. O problema é a velocidade: ilhas de excelência não compensam a inércia sistêmica.
Os gargalos que travam a agenda de negócios
Quatro frentes críticas apresentaram avanço mínimo. Duas batem direto na mesa de decisão corporativa:
- Divulgação de riscos e impactos por grandes empresas e instituições financeiras — a regulação vem aí, e a padronização (TNFD) deixa de ser voluntária;
- Reforma de subsídios nocivos — o Marco prevê redirecionar US$ 500 bilhões/ano que hoje financiam a destruição da natureza.
Completam a lista a conectividade de áreas protegidas (corredores verdes e azuis, bandeira brasileira) e o controle de espécies exóticas invasoras. A inação aqui eleva custos operacionais e de seguros no médio prazo.
O abismo financeiro: entre a promessa e o depósito
A meta é clara: US$ 200 bilhões/ano até 2030, sendo US$ 30 bilhões em financiamento público internacional. A realidade de 2025? Estimativas variam entre US$ 7,9 bi e US$ 92,4 bilhões. A amplitude do intervalo expõe a falta de métricas padronizadas — um risco contábil para alocadores.
Em Yerevan, os anúncios somaram US$ 60 milhões para o Fundo Global para a Biodiversidade (GBFF) e US$ 4,4 milhões para o nono ciclo do GEF. Valores que Caroline Rocha, diretora da LACLIMA, classifica como “módicos”.
A equação só fecha se a conversa sair dos fundos multilaterais. É preciso destravar a entrada de economias como a China na base de doadores, escalar o setor privado e, principalmente, executar o redirecionamento dos meio trilhão em subsídios perversos.
O que observar daqui para frente
Não espere um choque de oferta de capital público. A sinalização de Yerevan aponta para três vetores práticos nos próximos 12 a 18 meses:
- Regulação obrigatória de reporte (TNFD/CBD) avançando nas grandes jurisdições — prepare a governança de dados agora;
- Reforma de subsídios entrando em pautas fiscais nacionais — modele impactos no Capex e no P&L;
- Instrumentos de blended finance saindo do piloto para escala — quem estrutura primeiro captura o prêmio de liquidez.
A COP17 não resolveu a conta, mas explicitou o tamanho do buraco. Para o setor privado, a mensagem é única: a internalização da natureza no balanço deixou de ser ESG e virou variável de solvência.
