O Nasdaq desabou para o menor nível em três meses nesta sexta-feira (30), arrastado por um choque duplo: a Amazon sinalizando gastos recordes em IA e a Intel admitindo que vai queimar caixa em 2024. O índice chegou a 25.230 pontos, queda de 3,64% — o piso desde 31 de julho.
O que assusta não é a correção em si, mas o sinal que ela envia: o mercado começa a cobrar prazo de retorno para os bilhões despejados em infraestrutura de inteligência artificial. A pergunta que fica é: quanto tempo os investidores vão aceitar esperar?
O dia em que US$ 200 bi evaporaram em duas ações
Amazon e Intel sozinhas caminham para perder cerca de US$ 200 bilhões em valor de mercado combinado se as perdas se mantiverem. A Amazon caiu mais de 5% após revelar forte saída de caixa no terceiro trimestre e avisar que os gastos de capital vão subir ainda mais em 2025. A recuperação parcial no pré-mercado não segurou o tombo.
A Intel, porém, protagonizou o verdadeiro terremoto: queda superior a 30%, a caminho da maior perda diária de sua história. A fabricante admitiu três problemas simultâneos — mercado fraco de PCs, entraves na fabricação e investimentos pesados para expandir produção. O resultado: caixa negativo neste ano.
O efeito dominó no setor de chips
A venda não poupou as vizinhas. O índice setorial de semicondutores despencou 5,7%, com números que mostram a extensão do contágio:
- Nvidia: -3%
- AMD: -9,3%
- Dell e HP: -9% cada (fabricantes de servidores)
O Nasdaq-100 pode fechar o dia com perdas acima de US$ 1 trilhão. Em outubro, o prejuízo acumulado do índice supera US$ 2 trilhões — cerca de R$ 10,8 trilhões.
Rotação, não correção: para onde o dinheiro está indo
“Não acho que se trate de uma correção mais ampla. É mais uma rotação, saindo de um setor de tecnologia extremamente popular e indo para ativos mais seguros”, resumiu Art Hogan, estrategista-chefe da B. Riley Wealth. A leitura faz sentido quando se olha os setores que subiram enquanto a tech afundava:
- Bens de consumo básico: +1,9%
- Saúde: +1,7%
Setores defensivos clássicos, que tendem a brilhar quando o apetite por risco diminui.
O diferencial da Microsoft e o peso dos juros
Nem toda big tech sangrou igual. A Microsoft apresentou fluxo de caixa bem acima do esperado, embora tenha captado US$ 25 bilhões em títulos de dívida — sinal de que mesmo os fortes recorrem ao endividamento para bancar a corrida da IA.
Alphabet recuou 1,2%, ainda digerindo a decepção da véspera com publicidade em buscas e saídas de caixa elevadas. O setor de tecnologia da informação do S&P 500 caiu 3,4%, a maior queda diária desde junho. Serviços de comunicação perderam 0,7%, rumo ao pior mês desde abril de 2022.
O que observar daqui pra frente
Três variáveis vão ditar os próximos passos: a curva de juros nos EUA (o mercado já precifica alta acumulada de 0,5 ponto percentual até meados de 2027), a disposição dos balanços para sustentar capex crescente sem estrangular o caixa, e a velocidade com que a IA começa a gerar receita real — não apenas promessa. O Fed manteve juros entre 3,75% e 4% na quarta (28), mas o custo do dinheiro segue no radar. Enquanto o Dow Jones caminha para ganhos mensais, a Nasdaq está prestes a quebrar uma sequência de dois meses de alta. O recado está dado: o mercado ama a IA, mas exige que ela comece a se pagar.
