O varejo alimentar brasileiro registrou um crescimento de 6,5% na primeira semana de outubro, e a principal suspeita recai sobre o dinheiro que parou de ir para as apostas online. A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) detectou um padrão de consumo atípico em todo o território nacional logo após a derrubada das plataformas de bets.
O fenômeno se repetiu na semana seguinte, com alta de 6,3%, sugerindo que o recurso antes drenado pelo jogo digital pode ter migrado para o carrinho de compras. Mas a história tem camadas que vão além da correlação imediata.
O rastro do dinheiro que sumiu das bets
O vice-presidente da Abras, Marcio Milan, explica que a entidade monitora o varejo há anos e conhece as sazonalidades regionais. O que chamou a atenção nas semanas de 5 a 18 de outubro foi a uniformidade: todas as regiões e todos os formatos — supermercados, hipermercados, atacarejos e lojas de vizinhança — cresceram juntos, algo raro no histórico da série.
Não houve injeção extra de renda, nem choque de preços que justificasse o salto. A variável nova foi a medida provisória assinada em 25 de setembro, que tornou ilegais as apostas online. Os sites saíram do ar definitivamente em 6 de outubro, travando novos depósitos e cortando a publicidade agressiva que abastecia o setor.
Quem puxou a fila: o mapa regional do consumo
O avanço não foi homogêneo em intensidade. Na primeira semana analisada, Sul e a região Minas Gerais/Espírito Santo/Interior do Rio lideraram com 10,6% de alta. O Nordeste veio em seguida (6,5%), enquanto a Grande São Paulo fechou a lista com 1,2%.
Na semana posterior, o Sul manteve a ponta (9%), seguido pela mesma região Sudeste interiorana (7,1%) e pela Grande Rio (6%). A Grande São Paulo acelerou para 5,5%, indicando que o efeito pode ter demorado mais para chegar aos grandes centros metropolitanos.
- Sul: 10,6% e 9% nas duas semanas
- MG/ES/Interior RJ: 10,6% e 7,1%
- Nordeste: 6,5% e 4,5%
- Interior SP: 5,6% nas duas semanas
- Grande Rio: 4% e 6%
- Centro-Oeste: 3,6% e 3,5%
- Grande SP: 1,2% e 5,5%
O que entrou no carrinho: arroz, óleo e café
O crescimento concentrou-se na cesta de essenciais. Arroz, óleo de soja, macarrão e café puxaram a alta. Em setembro, o arroz subiu 4,56% e o óleo 1,83%, enquanto o café recuou 1,09%. No ano, porém, óleo (-8,59%), macarrão (-0,20%) e café (-16,19%) acumulam deflação — só o arroz está mais caro (+4,96%).
Isso significa que o consumidor não está apenas comprando mais porque os preços caíram; há um volume real de vendas maior, já que os dados da Abras são deflacionados pelo IPCA.
O pano de fundo: setembro fraco, outubro surpreendente
O contexto mensal ajuda a dimensionar o salto. Em setembro, o consumo nos lares caiu 1,46% frente a agosto, depois de duas altas consecutivas (3,01% em julho e 2,21% em agosto). Na comparação anual, setembro teve alta modesta de 0,59%. O acumulado do ano até então era de 2,70%.
Ou seja: outubro quebrou a trajetória de acomodação do terceiro trimestre com uma força que não se via nos anos anteriores.
O que observar daqui para frente
O período analisado não captura o reajuste do Bolsa Família nem a antecipação do benefício, ambos iniciados em 19 de outubro. Tampouco inclui eventuais efeitos do PIS/Pasep. Se o “efeito bets” se confirmar como estrutural, as próximas semanas devem mostrar se o varejo alimentar sustenta o patamar elevado ou se foi apenas um repique pontual de liquidez liberada.
Para o empresário do setor, o sinal é claro: o comportamento de gasto das famílias mudou de uma hora para outra quando uma alternativa de consumo de alto apelo foi removida. Monitorar a permanência desse fluxo nas cestas básicas — e não em categorias supérfluas — será decisivo para planejar estoques e promoções no último trimestre.
