Economia

R$ 50 bi e tecnologia inédita: os 3 leilões que vão sacudir 2027

Linhas de transmissão de alta tensão ao pôr do sol representando leilões de energia de R$ 50 bilhões com tecnologia VSC
Infraestrutura de transmissão: três leilões em 2027 devem ultrapassar R$ 50 bi com tecnologia VSC inédita no Brasil

A Aneel confirmou a realização de três leilões de transmissão em 2027 com potencial para ultrapassar R$ 50 bilhões em investimentos. O anúncio partiu do secretário de Leilões, Ivo Sechi Nazareno, logo após o último certame deste ano na B3. Mas o valor bilionário não é o único fator que exige atenção do mercado.

Pela primeira vez, o Brasil vai licitar linhas de corrente contínua com tecnologia VSC (Voltage Source Converter). Especialistas classificam o modelo como mais complexo e moderno que os padrões atuais, o que deve gerar os maiores contratos de transmissão já firmados no país.

O cronograma que o investidor precisa decorar

A agenda já está desenhada e divide o ano em três momentos distintos. O pontapé inicial acontece em abril, com um leilão nos moldes tradicionais. A novidade real chega no segundo semestre, quando dois certames serão instruídos em conjunto, mas realizados em datas separadas.

  • Outubro: Leilão exclusivo para o sistema de corrente contínua VSC (tecnologia inédita no Brasil).
  • Dezembro: Leilão de corrente alternada, complementar ao anterior.

A decisão de instruir os dois processos do segundo semestre juntos visa otimizar a alocação de recursos e a logística de conexão, mas a segregação das atividades em editais distintos mantém a clareza contratual para os vencedores.

Por que a tecnologia VSC muda o jogo

Diferente das contratações anteriores baseadas em LCC (Line Commutated Converter), a tecnologia VSC permite controle independente de potência ativa e reativa, além de dar partida em redes desenergizadas (“black start”). Para o sistema brasileiro, que expande fronteiras agrícolas e integra fontes renováveis intermitentes, isso representa ganho de estabilidade e flexibilidade operacional.

Na prática, são empreendimentos de altíssima tensão e longas distâncias, projetados para escoar energia de grandes complexos eólicos e solares no Nordeste e Norte para os centros de carga do Sudeste. A complexidade técnica eleva o Capex, mas também a receita anual permitida (RAP) — o que explica a projeção de contratos recordes.

Impacto direto na cadeia de suprimentos e funding

O volume projetado — superior a R$ 50 bilhões — pressiona toda a cadeia: fabricantes de conversores, cabos de alta tensão, torres e serviços de engenharia. Como há poucos fornecedores globais qualificados para VSC, a janela para encomendas de equipamentos de longa entrega (long lead items) se abre agora.

Do lado financeiro, a estruturação de project finance para ativos VSC exigirá modelagens de risco distintas, considerando a curva de aprendizado operacional no Brasil. Bancos e fundos de infraestrutura já ajustam comitês de crédito para avaliar esses ativos “first-of-a-kind” locais.

O que observar daqui para frente

Os editais preliminares e as minutas de contrato devem ser colocados em consulta pública ainda no primeiro trimestre de 2027. O mercado deve monitorar três variáveis críticas: a definição exata dos trechos VSC (que ditarão a extensão das linhas), os critérios de rateio de custos entre os dois leilões do segundo semestre e as garantias de performance exigidas para a tecnologia nova.

Quem antecipar a formação de consórcios e a due diligence técnica sobre fornecedores de VSC largará na frente. O leilão de abril serve como aquecimento, mas a disputa real — e os maiores cheques — estará nas rodadas de outubro e dezembro.