Economia

O lado oculto do milagre Milei: petróleo jorra no sul, empregos somem em Buenos Aires

Trabalhador argentino em Neuquén na indústria de petróleo com equipamentos de perfuração ao fundo
Boom do petróleo em Neuquén triplica salários enquanto Buenos Aires perde indústrias.

A Argentina de Javier Milei vive um paradoxo brutal: enquanto a Patagônia atrai bilhões em investimentos e salários triplicam, a região metropolitana de Buenos Aires acumula fechamento de fábricas e queda real de renda. Essa fratura geográfica e setorial define o verdadeiro teste político do governo para 2027.

Diego Esquivel, 38 anos, resume a migração interna. Em seis meses, seu salário saltou de US$ 900 para o triplo ao assumir a administração de um complexo residencial em Neuquén, coração de Vaca Muerta. “Em Buenos Aires eu não pagava as contas. Essa é a diferença”, diz. Ele não é caso isolado: a província recebeu 21 mil novos moradores só no último ano.

Para onde o dinheiro grande está indo

Os números macroeconômicos impressionam Wall Street. A inflação caiu de quase 300% para cerca de 30%; a pobreza atingiu o menor patamar em uma década; e as principais agências de risco elevaram a nota da dívida soberana. O programa de incentivos (RIGI) já aprovou 27 projetos somando US$ 76 bilhões em investimentos comprometidos, com outros US$ 133 bilhões em análise.

Capital estrangeiro não hesita. Peter Thiel comprou participação na Vista Energy, a Continental Resources (de Harold Hamm) disputa áreas em Vaca Muerta, e JPMorgan e Chevron financiam projetos de óleo e gás. O lítio no norte e o cobre no oeste completam o mapa da nova matriz exportadora.

O outro lado da moeda: 32 mil empresas a menos

Mas o otimismo dos balanços não chega ao chão de fábrica. Desde a posse de Milei, mais de 32 mil empresas fecharam as portas, levando o total de empregadores privados ao nível mais baixo desde 2007. A economia perdeu 265 mil vagas formais, compensadas apenas por empregos informais com salários drasticamente menores.

A FATE, fábrica de pneus com 80 anos de história, encerrou atividades em fevereiro após a abertura às importações. Quase mil trabalhadores foram demitidos. Alicia Arce, dona de uma loja de material de limpeza vizinha, viu as vendas caírem 30%. “Já falamos em fechar as portas. Não temos dinheiro nem para gasolina”, relata.

  • Setores vencedores: petróleo, gás, lítio, cobre — intensivos em capital.
  • Setores perdedores: comércio, construção, indústria tradicional — intensivos em mão de obra.
  • Emprego formal: apenas 4 de 23 províncias (mais CABA) criaram vagas desde o início do mandato.

Duas economias, um mesmo país

“Essa economia revela duas Argentinas”, define Marcelo Garcia, da Horizon Engage. A aprovação do governo caiu de 43% para 39% (AtlasIntel/Bloomberg, setembro), e os títulos soberanos figuram entre os piores desempenhos entre emergentes nos últimos dois meses. A recessão técnica (dois trimestres de contração) já é consenso entre economistas para o período abril-setembro.

Milei prometeu 5% de crescimento em 2026; o mercado projeta 1,5%. O governador de Neuquén, Rolando Figueroa, alerta: “Para trabalhar em Vaca Muerta é preciso se qualificar por pelo menos um ano. Não basta aparecer”.

O gargalo que ninguém conta em Neuquén

O “eldorado” patagônico tem data de validade se a infraestrutura não acompanhar. Estradas, saúde, educação e transporte público foram dimensionados para 700 mil habitantes, não para o fluxo atual. O governo local corre para construir 160 salas de aula. Empresários como Carlos Isa, da Micronor, alertam: “Muita gente vem achando que é sonho de ouro. Aconselho cautela. Custos aqui são mais altos e a atividade oscila com o preço do barril”.

Mesmo a educação financeira falha: consultores relatam empresários locais mantendo milhões em contas sem remuneração por desconfiarem do mercado de capitais — “acham que é cassino”.

O que define 2027: votos no leste, não poços no sul

Milei venceu em Neuquén com 60% dos votos, mas a eleição presidencial se decide na região metropolitana de Buenos Aires, onde o peronismo fragmentado (Massa, Kicillof, Máximo Kirchner) ainda não definiu liderança única. A oposição dividida é, hoje, o maior ativo do presidente.

Esquivel, que votou em Milei em 2023 e 2025, admite indecisão para 2027: “As decisões do governo podem nos afetar para melhor ou pior. Ainda falta muito e não decidi”.

O que observar daqui para frente: a capacidade de transbordar o superávit energético para geração de emprego formal no centro do país; a velocidade de execução dos US$ 76 bilhões aprovados no RIGI; e se a queda de popularidade se estabiliza ou acelera. Para investidores, o sinal verde virá quando a indústria de transformação e o varejo em São Paulo — ops, em Buenos Aires — voltarem a contratar com carteira assinada.