Economia

Canal do Porto de Santos para por 20h: o que ninguém explica sobre o apagão logístico

Guindaste sobre barcaça derrubando cabos de transmissão no Porto de Santos causando interdição de 20 horas
Acidente com guindaste fecha canal do Porto de Santos por mais de 20 horas e paralisa exportações

Um guindaste sobre uma barcaça derrubou quatro cabos de transmissão de 3 toneladas cada e fechou o principal corredor de exportação do Brasil por mais de 20 horas. Sete navios ficaram parados, mas o impacto real vai além da fila visível.

O que aconteceu nas últimas horas

Por volta das 16h25 de quinta-feira (29), a estrutura atingiu a linha que vem da Usina Hidrelétrica de Itatinga. A Capitania dos Portos interditou o trecho entre o cais da Marinha e as regiões do Centro, Alemoa e Ilha Barnabé. A área rumo à Ponta da Praia seguiu operando, o que preservou as travessias de passageiros para Guarujá.

Quatro embarcações tiveram entrada reprogramada. Outras três permaneceram retidas no cais aguardando liberação para sair. A remoção dos cabos foi concluída na tarde de sexta (30), com previsão de reabertura ainda hoje.

Por que sete navios param um porto inteiro

Santos moveu 162 milhões de toneladas em 2023. Cada dia de canal fechado representa cerca de R$ 1,2 bilhão em cargas represadas, segundo estimativas do setor. Os sete navios afetados carregam soja, celulose, fertilizantes e contêineres — cadeias que não têm rota alternativa viável.

O gerente Rafael Apolinário, da Autoridade Portuária (APS), confirmou que a operação de retirada foi prioridade máxima. “Estamos tomando as providências para garantir a segurança da navegação e, o quanto antes possível, fazer a liberação do canal”, disse.

Energia: o detalhe que passou despercebido

  • Prédio da APS: não houve apagão — sistema redundante com a CPFL manteve duas fontes ativas.
  • Terminais privados: operam com energia própria; Itatinga entra apenas como backup emergencial.
  • Cabos derrubados: pertenciam à linha de transmissão, não à distribuição local.

Ou seja: a operação portuária não parou por falta de luz, mas por risco físico de navegação. A diferença muda a responsabilidade e o seguro.

O gargalo invisível: barcaças e guindastes sem fiscalização padrão

O equipamento acidentado prestava serviço a terminais, não à APS. Não há exigência pública de plano de contingência para operações de içamento sob linhas de transmissão. A Marinha investiga, mas o inquérito costuma levar meses.

Enquanto isso, terminais seguem contratando barcaças sem certificação específica para proximidade de cabos energizados. O acidente expõe uma lacuna regulatória que ninguém discute em audiências.

O que observar daqui para frente

A reabertura do canal não encerra o episódio. Três pontos definem se o prejuízo fica nos R$ 1,2 bi ou escala:

  • Velocidade de reagendamento dos sete navios nos berços disponíveis.
  • Possível fila de espera acumulada para a próxima semana — Santos opera no limite da capacidade.
  • Resultado da perícia: se houver negligência na operação da barcaça, seguros e contratos de prestação de serviço serão judicializados.

Para quem importa ou exporta pelo maior porto da América Latina, a lição prática é simples: contratos de frete e seguro precisam prever interdições por “eventos de infraestrutura terceirizada”, não apenas force majeure clássico. A próxima barcaça pode estar a caminho do mesmo trecho agora mesmo.