Fábio Barbosa, presidente do conselho da Natura e ex-presidente do Santander Brasil, resume o cenário em uma frase: o país não vai falir, mas está condenado a crescer pouco nos próximos anos. A razão não é mistério — juros altos e uma conta pública que não fecha. Para quem toma decisão de investimento, o recado é claro: o custo de capital continuará pesado.
Em entrevista rara, o executivo que também sobe nos conselhos da Ambev e Votorantim disse não ver catástrofe, mas traçou um roteiro desconfortável. O diagnóstico passa longe de ideologias e mira na aritmética que aperta margens e consome rentabilidade.
O diagnóstico duro sobre o fiscal
Barbosa não nega os ativos do Brasil: contas externas equilibradas, Banco Central independente, agricultura forte, energia abundante e petróleo em alta. O problema, segundo ele, está no lado de dentro. A dívida pública saltou de 72% para 82% do PIB em quatro anos.
Esse movimento tem consequência direta: para financiar o déficit, o governo compete por poupança interna, empurrando a Selic para cima. Juros altos encarecem o crédito para empresas e famílias, freiam o consumo e travam a expansão da capacidade produtiva. O resultado é um círculo vicioso que pune justamente os mais pobres.
Por que gastar mais não resolve a pobreza
O ex-banqueiro usa uma analogia direta: se todo mundo tiver dinheiro para comprar picanha, mas a produção de picanha não aumentar, o preço dispara. O Banco Central reage subindo juros. Quem paga a conta? Quem tem menor poder aquisitivo, atingido pela inflação e pelo crédito caro.
Ele defende programas sociais, mas cobra eficiência. Cita a necessidade de um “pente-fino” para cortar benefícios pagos indevidamente — como quem trabalha sem registro para não perder a transferência ou casais que se separam no papel para duplicar o recebimento. “A esquerda não tem monopólio do bem-estar social”, afirma. “Quem pede equilíbrio fiscal também quer reduzir a miséria.”
A conta que chega em 2027
O ano de 2027 aparece no radar como ponto de inflexão difícil. Barbosa projeta perda de fôlego da economia justamente quando o modelo atual de expansão de gastos se esgota. Não há colapso à vista, mas a manutenção de um crescimento medíocre — algo entre 1,5% e 2% ao ano — que impede ganhos reais de renda e emprego de qualidade.
Entre os entraves listados, três pesam no curto prazo:
- Reforma tributária incompleta: a simplificação avançou, mas faltam definir alíquota final, regras do split payment e a divisão de risco entre comprador e vendedor.
- Imposto de Renda parado: isenções em LCI, LCA, CRI, CRA e debêntures incentivadas custam cerca de R$ 57 bilhões ao ano — renúncia que beneficia investidores de alta renda e distorce a alocação de capital.
- Endividamento das famílias: juros reais elevados comprimem a renda disponível; o avanço das apostas online (bets) agravou o quadro, mas a raiz está no custo do dinheiro.
O custo invisível da desigualdade
Barbosa cita estudo de Michael França e Daniel Duque (Os Custos das Desigualdades) para mostrar que a exclusão não é só problema moral — é ineficiência econômica. Um mercado consumidor potencial de 210 milhões de pessoas funciona, na prática, com metade disso. Gente sem educação de qualidade não vira mão de obra produtiva, não consome bens de maior valor agregado e não paga impostos na mesma proporção.
Para o empresário, a equação é simples: menos desigualdade significa mais clientes com capacidade de pagamento e uma base tributária mais larga. O ganho é de todos.
O que observar daqui para frente
O fechamento do ciclo político não apaga a urgência fiscal. O que definirá a trajetória até 2027 é a disposição — ou a capacidade — de fazer o ajuste do lado da despesa: reforma administrativa, corte de penduricalhos no Judiciário, revisão de incentivos setoriais e fim de brechas no IR. Sem isso, a Selic permanecerá estruturalmente alta, o investimento privado seguirá contido e o “crescimento medíocre” virará a nova normalidade. Acompanhe a execução orçamentária trimestral e a tramitação da reforma do IR: são os termômetros reais de quanto tempo o Brasil vai levar para sair do lugar.
