O Brasil não vai quebrar, mas está condenado a um crescimento medíocre pelos próximos anos. O alerta vem de Fábio Coletti Barbosa, presidente do conselho da Natura e ex-presidente do Santander Brasil, que vê 2027 como um ano “muito difícil” para a economia. A razão? Juros elevados e uma necessidade gigantesca de financiamento público que trava o país.
Barbosa não esconde a preferência por um centro político — apoiou Simone Tebet em 2022 — mas sua leitura é fria: o modelo fiscal atual não se sustenta. A dívida pública saltou de 72% para 82% do PIB no governo Lula. O resultado prático é uma conta que chega ao bolso de todos via juros altos e inflação.
Por que o ajuste fiscal não é “coisa de direita”
O executivo desmonta a ideia de que equilíbrio fiscal é pauta exclusiva de um espectro ideológico. “A esquerda não tem o monopólio do bem-estar social”, afirma. Para ele, gastar sem produzir mais apenas empurra preços para cima — e quem paga a conta são os mais pobres.
O exemplo da picanha resume a lógica: se todo mundo tem dinheiro para comprar, mas a oferta não cresce, o preço dispara. O Banco Central reage subindo juros. Crédito caro e inflação alta atingem em cheio a base da pirâmide.
O “pente-fino” que falta nos programas sociais
Barbosa defende as políticas de transferência de renda, mas cobra eficiência. Cita estudo de Marcos Mendes (Insper) mostrando distorções que permitem benefícios a quem não é público-alvo. Exemplos concretos:
- Trabalhadores informais que evitam registro para não perder o Bolsa Família
- Casais que se separam no papel para duplicar o benefício
- Valor único do programa ignorando necessidades regionais diferentes
O argumento: corrigir vazamentos libera recursos para quem realmente precisa, sem aumentar a carga tributária.
Reforma tributária: avanço, mas não o suficiente
A simplificação do consumo foi um passo na direção certa, segundo Barbosa. Ainda faltam definições críticas: alíquota final, funcionamento do split payment e como o risco de inadimplência do fornecedor não recairá sobre o comprador.
Além disso, a reforma do Imposto de Renda segue parada. O executivo endossa a crítica de André Esteves (BTG) sobre isenções em LCI, LCA, CRI, CRA e debêntures incentivadas — renúncia estimada em R$ 57 bilhões ao ano (R$ 33 bi diretos + R$ 24 bi no custo de captação do Tesouro). “Beneficia investidores que não deveriam ser exceção”, resume.
O que 2027 reserva para quem decide
O cenário-base de Barbosa não é catastrófico. O Brasil tem ativos reais: contas externas em ordem, BC independente, petróleo, agro, energia, metais, mercados abertos. O problema é a velocidade. A economia “não andou para trás, ficou para trás” — cresce menos que pares emergentes enquanto a dívida acelera.
Para empresários e investidores, a leitura prática é clara: planejar com juros reais altos por tempo prolongado. Projetos de longo prazo precisam internalizar custo de capital elevado. O consumo das classes C e D seguirá pressionado por endividamento e inflação de serviços.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definem se o “crescimento medíocre” vira estagnação ou recuperação gradual: (1) velocidade do pente-fino nos benefícios e contenção de penduricalhos no Judiciário; (2) entrega da reforma do IR com fim de isenções regressivas; (3) disposição política para uma reforma administrativa que corte custos fixos do Estado. Sem elas, 2027 será apenas o primeiro de uma sequência de anos apertados.
