A arroba do boi gordo superou a barreira dos R$ 400 em praças paulistas de oferta restrita, enquanto a média diária do Cepea ronda os R$ 390. O repasse ao varejo já acumula 9% no ano só na capital paulista, mas um vetor sanitário inesperado em Santa Catarina pode inverter a lógica de competitividade entre as proteínas animais ainda este mês.
O choque no balcão do açougue
Nas últimas quatro semanas, a carne bovina subiu 2,3% para o consumidor final em São Paulo, mantendo a trajetória de alta do mês anterior. O filé mignon lidera o avanço com 8% no período, seguido pelo patinho, com 3,4%. A conta chega ao bolso: o quilo da carcaça casada bovina atinge R$ 25, valor que hoje compra 3,24 quilos de frango resfriado.
Há exatamente um ano, a mesma relação era de 2,71 quilos. A distância entre as proteínas nunca foi tão larga — e isso antes de o mercado digerir o novo cenário sanitário do Sul.
Newcastle em SC: o cisne negro da avicultura
Focos da doença de Newcastle em quatro municípios catarinenses — Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim — dispararam restrições comerciais em cadeia. Parte dos importadores vetou todo o frango brasileiro; outros, apenas o produto de Santa Catarina; a maioria, contudo, limitou o embargo à zona afetada.
Se a maioria dos compradores externos mantiver as portas fechadas, o excedente de carne de frango será forçado a permanecer no mercado interno. O efeito imediato: pressão de baixa nos preços domésticos da ave, ampliando ainda mais a vantagem competitiva frente ao boi.
O xadrez das exportações
Enquanto o boi enfrenta amarras na China e na União Europeia — as exportações diárias de outubro recuaram 34% ante o ano anterior, para 10 mil toneladas, embora os preços médios tenham subido 14% —, a avicultura mundial vive crise simultânea:
- EUA: gripe aviária em todo o território; 210 milhões de aves eliminadas desde 2022.
- Europa: mesmo patógeno em circulação ativa.
- Brasil: livre da influenza, mas agora com Newcastle em área focal.
O Brasil segue como o único grande ofertante sem influenza aviária, o que preserva seu status sanitário amplo — mas o episódio catarinense exige monitoramento diário.
Suínos: a terceira via encurta distâncias
A relação de troca entre bovinos e suínos também se moveu. Um quilo de carcaça bovina equivale hoje a 2,63 quilos de carcaça suína; no mês passado, a proporção era de 3,14. A carne de porco valorizou, reduzindo o espaço de arbitragem para o consumidor que busca alternativa ao boi.
O que observar daqui para frente
A definição dos embargos ao frango catarinense nas próximas duas semanas ditará o ritmo dos preços no varejo. Se a oferta interna de ave aumentar, o boi perde poder de repasse — e o produtor rural sente no bolso. Acompanhe os boletins do Cepea e os comunicados do Ministério da Agricultura: a janela de oportunidade para reposição de estoques ou hedge de custos pode ser curta.
