Economia

Obra na Chucri Zaidan: desvio de 1 km derruba faturamento em 50% e muda rotina na Zona Sul

Obra na Avenida Chucri Zaidan com desvio de pedestres e sinalização na Zona Sul de São Paulo
Interdição na travessia da Verbo Divino com Cecília Lottenberg obriga desvio de 1 km desde outubro de 2024

A interdição da travessia de pedestres no cruzamento da Rua Verbo Divino com a Avenida Cecília Lottenberg, em vigor desde 17 de outubro, transformou um percurso de 200 metros em uma volta de quase um quilômetro. Com previsão de liberação apenas para fevereiro de 2027, a obra de prolongamento da Avenida Chucri Zaidan já seca o caixa de comércios e alonga a jornada de trabalhadores da Chácara Santo Antônio.

O impacto não é teórico: entidades de classe e lojistas relatam queda de metade do faturamento em poucas semanas. O tempo extra gasto no deslocamento — até 35 minutos a mais no horário de almoço — virou barreira intransponível para quem tem janela curta de descanso.

Onde o prejuízo aparece primeiro

A Abrasel SP mapeou 32 bares e restaurantes em 29 endereços num raio de 500 metros do cruzamento bloqueado. O presidente da entidade, Gabriel Pinheiro, confirma que os relatos convergem: redução de 50% no faturamento e esvaziamento do café da manhã, faixa horária que costuma sustentar a operação nos meses de menor movimento.

Milvan Matos, dona de restaurante há 25 anos no local, resume o cenário: “Meu café da manhã zerou. Eu não atendo um cliente no café da manhã”. Ela abre as portas às 4h30 e, desde o bloqueio, não vê o público que atravessava a via para o primeiro café do dia. O golpe coincide com o pico de despesas de fim de ano — 13º, férias, IPTU, aluguel e reposição de estoque.

Mudança de endereço e demissões

Helder Antônio, 44 anos, proprietário de uma doceria exatamente no cruzamento interditado, precisou realocar o negócio. Colocou placa no antigo ponto orientando clientes, mas admite: “não adiantou muito”. Estima queda de 50% no faturamento e já demitiu dois funcionários para manter a loja aberta.

O pleito dos comerciantes não é paralisar a obra. “Não estamos sendo contra a obra. Nós só estamos pedindo que eles deem uma olhada melhor para a gente, para proporcionar uma solução”, diz Helder. A Abrasel propõe uma passagem provisória protegida a até 150 metros do ponto original, mantendo segurança sem isolar o comércio.

Efeito cascata no varejo e no trânsito

O bloqueio não poupou outros segmentos. Cristiane Oliveira Arruda, dona de loja de roupas, sentiu o baque em dezembro, quando placas proibiram estacionamento em frente ao estabelecimento. “Perdi quem vinha de carro”, conta. Colocou sinalização indicando o estacionamento mais próximo, mas admite que clientes desistem na hora de parar.

  • Tempo de deslocamento a pé: de 8 para 16 minutos (fretado); +30 min no trajeto total (ônibus/trem)
  • Almoço: trabalhadores com 15 min de intervalo deixaram de ir a restaurantes
  • Condições do percurso: barro, resíduos de cimento, calçada estreita — pior com chuva
  • Adaptação: marmita de casa virou regra para evitar a caminhada

Bianca Toledo, 43 anos, funcionária de empresa próxima, descreve a nova rotina: colegas levam comida de casa, mulheres de salto enfrentam lama, e quem usa transporte público desce pontos antes para caminhar. “Se venho de fretado, o trajeto que demorava 8 minutos passou a ser de 16. Se venho de ônibus, preciso descer dois pontos antes. Se venho de trem, também preciso andar muito.”

O que está por trás da intervenção

O projeto integra a Operação Urbana Água Espraiada: extensão de 3 km da Avenida Chucri Zaidan, conectando a Avenida João Doria à Avenida João Dias. Inclui túnel de 900 metros sob a Cecília Lottenberg, corredor de ônibus, calçadas e ciclovias. Investimento anunciado: R$ 376 milhões. Obras retomadas em 2024 após paralisação por questões contratuais e orçamentárias.

A SPObras justifica o fechamento total da travessia por segurança: operação de guindastes e equipamentos de grande porte na construção do túnel. Diz ter implantado rotas alternativas sinalizadas. Conclusão total prevista para maio de 2027.

O que observar nos próximos meses

A conta não fecha sozinha. Comerciantes acumulam passivos de fim de ano sem a receita sazonal que costuma cobri-los. A promessa de passagem provisória a 150 metros — se aceita e executada — poderia estancar a sangria, mas depende de viabilidade técnica e vontade política. Enquanto isso, cada dia de obra sem solução de acesso empurra mais um negócio para o vermelho e mais um trabalhador para a marmita. Vale monitorar a resposta da prefeitura à demanda da Abrasel e eventuais medidas de mitigação econômica (isenções, linhas de crédito ou compensações) que costumam surgir em obras de longo prazo com impacto local severo.