O Ministério Público de São Paulo pediu a condenação de Renato Cariani a até 51 anos de prisão, baseando-se em mensagens que mostram articulação direta com um policial civil para enterrar um inquérito anterior. O influencer fitness, dono da Anidrol, responde por associação para o tráfico, desvio de insumos químicos e lavagem de dinheiro.
O que chama a atenção não é apenas o volume de acusações, mas a forma como o réu acessava informações sigilosas. Segundo as alegações finais do Gaeco, Cariani não esperava a justiça agir; ele interferia no ritmo da apuração com a colaboração de um servidor da fiscalização química.
A ponte entre o investigado e o fiscal
O policial civil André Dziuba, lotado no setor de controle de produtos químicos, é a figura central nas trocas de mensagens recuperadas. A promotoria descreve uma relação de “proximidade anômala”: o agente passava dados de diligências em andamento e o empresário opinava sobre alvos de fiscalização, sugerindo até concorrentes para serem verificados.
Para os promotores, isso configura duplo benefício ilícito: proteção ao esquema de desvio de insumos para o narcotráfico e uso da máquina estatal para atrapalhar rivais de mercado.
Cronologia de uma interferência
As conversas se estendem de 2021 a 2023, desenhando um padrão de atuação contínua:
- Nov/2021: Dziuba avisa que o escrivão precisa ouvir Cariani no inquérito da AstraZeneca, mas diz: “fazemos ao seu tempo, não tem pressa”.
- Jul/2022: Policial pede verificação de placas de veículos; Cariani questiona se o caso não acabou. Resposta: “relaxa que estamos de olho e orientando o escrivão”.
- Set/2022: Agente admite ter feito “relatório induzindo o delegado a não fazer mais nada” por não identificar as placas.
- Jan/2023: Interlocutor pede número do inquérito “para arquivar aquilo”; Cariani consulta Dziuba, recebe o número e a confirmação do arquivamento. Comemoram: “Acabou, meu. É só tomar uma”.
O conhecimento técnico do crime
Além da obstrução, as mensagens expõem a consciência de Cariani sobre o destino final dos produtos. Em abril de 2019, questionado pelo policial se certa substância era controlada pela Anvisa, a resposta atribuída ao influenciador foi direta: “É sim Andrezão… Controlado pela ANVISA e utilizado para aumentar o rendimento da cocaína”.
Esse trecho derruba a tese de desconhecimento do uso ilícito. A promotoria argumenta que o réu sabia exatamente para onde iam os 100 litros de éter etílico e 50 kg de cloridrato de lidocaína faturados falsamente à AstraZeneca em 2018.
O esquema das notas frias
A denúncia detalha 59 ocasiões em que a Anidrol simulou vendas para empresas que não fizeram pedidos. Cariani autorizava retiradas fora do expediente e fornecia à Polícia Federal comprovantes com placas, documentos e habilitações falsas — que ele mesmo declarou estarem “arquivados” no celular.
Fábio Spinola Mota, também denunciado, atuaria como elo operacional: criou e-mail falso em nome de funcionário da AstraZeneca, negociava entregas e direcionava os insumos ao tráfico. Rodrigo Gomes Pereira completaria o trio na lavagem de capitais, movimentando valores em espécie para dar aparência lícita ao lucro.
O que acontece agora
O processo está na fase de alegações finais da defesa. Se o juiz acolher integralmente o pedido do MP, cada réu pode pegar entre 16 anos e 4 meses a 51 anos e 8 meses de prisão, considerando a continuidade delitiva (59 crimes de tráfico de insumos e 59 de lavagem). O teto de cumprimento, porém, é de 40 anos pela legislação brasileira.
A defesa de Cariani classificou o pedido como “natural” e promete demonstrar a improcedência das teses com base na prova produzida. Roseli Dorth (sócia) e Andreia Domingues Ferreira tiveram absolvição pedida por falta de provas.
O que observar nos próximos passos
A sentença dependerá do peso que o magistrado dará às mensagens extraídas do celular — prova técnica que a defesa do inquérito arquivado em 2023 não conhecia. Dois pontos decidirão o desfecho: a validação da autenticidade dos diálogos periciados e a configuração da “continuidade delitiva” para somar as 59 condutas. Enquanto isso, Cariani segue em liberdade, mantendo sua operação de conteúdo para 11 milhões de seguidores no Instagram.
