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Flávio Bolsonaro nos EUA: o segredo por trás da aliança com Trump

Flávio Bolsonaro caminha em Washington DC com bandeira do Brasil, reunião política EUA-Brasil
Senador Flávio Bolsonaro em visita aos EUA para articular aliança com governo Trump.

Flávio Bolsonaro desembarcou nos Estados Unidos nesta quarta-feira (29) carregando uma bagagem política pesada: a tentativa de transformar afinidade ideológica com Donald Trump em capital eleitoral e geopolítico. A proximidade, no entanto, esconde um histórico de gestos contidos e interesses divergentes que poucos detalham. O que está realmente em jogo nessa ponte entre Brasília e Washington?

Afinidade de palanque, distância de gabinete

Apesar do discurso alinhado, o contato pessoal entre o senador do PL e o presidente americano resume-se a um único encontro presencial antes da viagem atual. Trump evitou endossar a candidatura de Flávio explicitamente. Questionado sobre a carta em que o brasileiro se autodeclarava “líder do Brasil”, o republicano foi direto: “Não vou me envolver”.

A justificativa veio no dia seguinte: Trump afirmou ter atendido a um pedido de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para não tomar partido na disputa brasileira. “Deixei as coisas seguirem seu curso”, disse. Com as eleições legislativas americanas se aproximando em 3 de novembro e projeções favoráveis aos democratas, o presidente dos EUA prioriza sua própria sobrevivência política.

Mesmo sem declarações formais, a figura de Trump foi explorada na campanha. Em ato na Avenida Paulista, apoiadores exibiram um míssil inflável com a inscrição “Trump nuke Brazil”, sinalizando o tom radical da base que Flávio tenta mobilizar.

O pedido que mudou o jogo: PCC e CV na lista de terror

O marco zero da relação institucional ocorreu em maio de 2026, quando Flávio foi recebido na Casa Branca. Na pauta, um pedido ousado: classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras.

O encontro aconteceu em meio a turbulências domésticas, como a investigação da Polícia Federal sobre o financiamento do filme Dark Horse pelo Banco Master. Segundo o senador, a conversa girou também em torno de tarifas comerciais, minerais críticos e dos processos judiciais contra seu pai, Jair Bolsonaro.

No dia seguinte, Flávio reuniu-se com o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio. Os temas: liberdade de expressão, segurança pública e comércio bilateral. O resultado prático veio em junho: Washington oficializou a designação terrorista para as duas facções.

O que a designação muda na prática

  • Bloqueio de ativos vinculados aos grupos nos EUA.
  • Proibição de transações financeiras com as organizações.
  • Responsabilização criminal para quem prestar apoio material.

A medida vale apenas sob jurisdição americana, não alterando a legislação brasileira. O governo Lula opôs-se à decisão, alegando riscos à soberania. O promotor Lincoln Gakiya, referência no combate ao crime organizado em São Paulo, alertou que a classificação “vai causar problemas” à cooperação policial.

Tarifas: a conta chegou para o agronegócio e a indústria

A lua de mel durou pouco. Horas após anunciar novo pacote tarifário contra o Brasil, Trump publicou foto com Flávio no Salão Oval, chamando-o de “jovem inteligente que ama o Brasil”. Em julho, os 25% sobre produtos brasileiros foram confirmados após investigação comercial.

A reação do senador foi enviar carta a Rubio pedindo a suspensão das taxas até sua eventual eleição, argumentando prejuízos à população e propondo acordo comercial futuro. O episódio virou munição para o Palácio do Planalto: aliados de Lula acusaram Flávio e o irmão Eduardo Bolsonaro de articularem a pressão americana.

Flávio nega ter atuado a favor das tarifas e afirma ter pedido diretamente a Trump para não impô-las. A contradição entre o discurso público e a articulação nos bastidores expõe a fragilidade da aliança quando interesses econômicos colidem.

Pix na mira: quando inovação vira ameaça comercial

Outro front de atrito surgiu quando representantes americanos passaram a ver o Pix como risco para Visa e Mastercard. O sistema de pagamentos instantâneos gratuito para pessoas físicas chegou a ser citado como justificativa para um segundo tarifaço — este de 50%, anunciado em 9 de julho.

Em 7 de julho, Flávio protocolou defesa formal no Escritório do Representante de Comércio (USTR). O documento assumia “compromisso legislativo” de não internacionalizar o Pix e argumentava que cartões oferecem serviços inexistentes no sistema brasileiro, como crédito ao consumidor e chargeback. O senador citou o FedNow, do Federal Reserve, como prova de que os EUA também desenvolvem tecnologia similar.

A peça classificou como “exageradas” as alegações de conflito de interesse do governo Trump e posicionou o Pix como legado da gestão Bolsonaro. A estratégia: desarmar a retaliação protegendo um ativo nacional estratégico.

A carta na manga: Lei Magnitsky e o STF

O capítulo mais explosivo da relação envolve o Judiciário brasileiro. Em julho de 2025, Flávio comemorou sanções impostas por Trump ao ministro Alexandre de Moraes (STF) via Lei Magnitsky. No dia do anúncio das tarifas de 50%, o senador tuitou: “We want Magnitsky” (“Queremos Magnitsky”).

Em 30 de julho, as sanções foram oficializadas. A Casa Branca acusou Moraes de censura, detenções arbitrárias e violações de direitos humanos. Flávio defendeu punições a autoridades brasileiras; o governo Lula classificou a medida como ingerência inaceitável.

O desfecho surpreendeu: em dezembro de 2025, o nome de Moraes foi retirado da lista de sancionados. A reversão sinaliza que a ferramenta foi usada como moeda de troca diplomática, não como política de Estado permanente.

O que observar daqui para frente

O cenário desenha um xadrez de três tabuleiros: a campanha presidencial brasileira, a disputa legislativa nos EUA e a guerra comercial em curso. Três variáveis definirão os próximos movimentos:

  • Se Trump conseguir maioria no Congresso, a pressão por alinhamento automático do Itamaraty aumenta.
  • A manutenção das tarifas de 25% e 50% teste a capacidade de Flávio entregar a prometida “negociação pós-eleição”.
  • O destino do processo contra Jair Bolsonaro e a postura do STF ditam se a carta Magnitsky volta à mesa.

Para investidores e empresários, o recado é claro: a relação bilateral deixou de ser previsível. Decisões de compliance, cadeia de suprimentos e alocação de capital na região devem incorporar o risco de sanções setoriais e volatilidade cambial induzida por ruídos políticos. Acompanhar a agenda de Marco Rubio e as audiências no Congresso americano sobre América Latina passou a ser item obrigatório de due diligence.