Gustavo Medeiros, 18 anos, calouro de medicina na USP de Ribeirão Preto, mantém a promessa feita durante o ano de vestibular: rezar o terço todos os dias. A diferença é que agora ele faz isso caminhando entre laboratórios e o pensionato onde divide o teto com mais 20 estranhos, a 1,8 mil quilômetros de Teresina.
Em janeiro, ele colecionou aprovações na Unicamp, UFPI e USP. Hoje, no segundo período, o desafio trocou de nome: não é mais “passar”, é “sobreviver” à carga horária sem perder o eixo.
A geografia da solidão muda tudo
O primeiro choque não foi o conteúdo das aulas. Foi a logística. Sem carro, sem família por perto, com horários fluidos e uma cultura paulista que ele define como “diferente”, Gustavo precisou reconstruir a rotina do zero.
“Você tem que ser muito flexível para ir se adequando e organizando os horários que você tem pra estudar, porque é muita coisa”, resume. Na prática, as seis horas diárias de estudo do cursinho viraram três — nos dias bons. “Às vezes eu tenho um dia todo cheio de aula e não dá nem pra estudar direito.”
Quando o frio vira objeto de estudo
A adaptação ao clima de São Paulo rendeu mais que casacos novos. Em agosto, Gustavo apresentou trabalho no Congresso Brasileiro de Cardiogeriatria sobre a relação entre infarto e baixas temperaturas.
A hipótese nasceu da pele: “Durante o inverno, eu tava sentindo muito frio. Comecei a pensar que isso pode representar um risco de infarto. Pensei ‘cara, será que tem sentido isso’. Aí fui pesquisar, fiz um resumo e submeti.”
Resultado: estreia em congresso nacional antes de completar o primeiro ano de faculdade.
Fé como ferramenta de gestão de tempo
O terço não ficou no Piauí. Gustavo encaixa as dezenas nos deslocamentos a pé pelo campus — 10, 15 minutos de caminhada viram janela de oração. “Geralmente eu chego em casa com o terço já rezado, ou quase terminando.”
Ele também frequenta missas dominicais em uma paróquia local e foi convidado a participar da Opus Dei, prelazia que propõe santificar o trabalho e o estudo cotidianos.
“Alguns entendem que a fé deve ser deixada de lado em momentos de estudo mais intenso, mas digo que isso não é verdade. Mais do que nunca, é a fé que vai te sustentar e botar nos eixos.”
O que vem pela frente — e o que observar
- Especialidade: indefinida. “Está muito no começo, na parte básica. A gente precisa ver todos os sistemas do corpo humano.”
- Carga horária: tende a aumentar nos próximos períodos, testando a manutenção das três horas de estudo extraclasse.
- Pesquisa: a estreia no congresso abre portas para iniciação científica — diferencial competitivo para residência.
- Equilíbrio: a gestão de tempo entre aulas, deslocamentos, oração e vida social em pensionato será o termômetro real de burnout ou maturidade.
Para quem acompanha a trajetória de jovens talentos fora do eixo Rio-São Paulo, o caso sinaliza algo além do mérito individual: a capacidade de transplantar hábitos de alta performance para ambientes hostis, sem rede de apoio presencial, pode ser o verdadeiro preditor de sucesso na medicina brasileira.
