Justiça

O voto que não chegou: por que milhões de trabalhadores ficaram fora da urna

Trabalhadores em fila de ônibus lotado no dia da eleição, impossibilitados de votar por falta de transporte e folga
A barreira invisível: milhões de trabalhadores não conseguem chegar às urnas por falta de garantias legais.

Um motorista perdeu o emprego por recusar uma viagem de 400 km na véspera da eleição de 2014 — ele não conseguiria votar. A justiça trabalhista manteve a demissão: bastaria justificar a ausência. O precedente vale até hoje e expõe uma falha que se repetiu no último pleito.

Entre o primeiro e o segundo turno de 2022, o TSE e o STF tiveram três semanas para agir. Não houve decisão preventiva que garantisse transporte ou folga para trabalhadores. O resultado: urnas acessíveis apenas para quem pôde pagar carona ou negociar com o chefe.

O caso que virou regra

Em Mato Grosso, o Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região restabeleceu a justa causa em 2016. O acórdão foi claro: a relação de trabalho prevalece sobre o calendário eleitoral. Justificar o voto, segundo os desembargadores, equivaleria a exercê-lo.

O trânsito em julgado transformou a decisão em precedente. Desde então, empregadores têm respaldo jurídico para exigir expediente normal em dia de eleição. O custo recai sobre quem depende do salário para sobreviver.

O que aconteceu no segundo turno de 2022

A abstenção recorde no primeiro turno acendeu o alerta. Ainda assim, nenhuma medida estrutural foi adotada. No dia da votação, ônibus parados em garagens — como em Salvador — e a prorrogação de duas horas no horário de votação chegaram tarde e resolveram pouco.

A participação política de milhões dependeu de:

  • Caronas solidárias organizadas às pressas
  • Boa vontade de gerentes e supervisores
  • Decisões judiciais de última hora, já com urnas abertas

Incontáveis eleitores não chegaram a tempo.

A representação ignorada pela PGR

O advogado público Joabe dos Santos Souza protocolou na Procuradoria-Geral da República uma representação com duas listas de apoio: 95 cidadãos e 23 advogados ligados ao movimento negro, encabeçados por Rosana Rufino, do Instituto da Advocacia Negra Brasileira.

O pedido era objetivo: acionar o STF para garantir o voto dos trabalhadores já no segundo turno. Até o dia da eleição, nenhum retorno foi dado aos subscritores.

O que a proposta prevê

A representação desenha um critério concreto, não uma promessa genérica:

  • Garantia de pelo menos um período completo de votação (manhã ou tarde)
  • Aviso prévio mínimo de 48 horas ao empregado
  • Proteção contra descontos, compensações forçadas e retaliações
  • Nos serviços essenciais: revezamento e substituição para assegurar a participação

É um desenho operacional, passível de ajustes — mas que exige resposta institucional antes da próxima eleição.

Quem paga a conta da omissão

O estrato mais pobre da população — majoritariamente negro no Brasil — é o mais afetado. A abstenção menor que a esperada no segundo turno não foi mérito da Justiça. Foi resultado de mobilização popular para virar um cenário adverso no primeiro turno.

Enquanto instituições discutem formalidades, o trabalhador escolhe entre o salário do dia e o direito de escolher quem governa.

O que observar daqui para frente

A próxima eleição já começou para quem não votou. O que está em jogo agora é se TSE, STF e PGR vão transformar a omissão de 2022 em precedente de ação — ou se o motorista de 2014 continuará sendo a regra. A proposta está na mesa. Cabe às instituições respondê-la antes que as urnas fechem de novo.