As estatais federais fecharam setembro com um déficit primário de R$ 2 bilhões, o maior rombo para o mês desde o início da série histórica do Banco Central, em 2001. O dado, divulgado nesta quinta-feira (29), acende um alerta vermelho nas contas públicas justamente quando o governo tenta equilibrar as finanças.
O resultado negativo não é um evento isolado. A última vez que setembro fechou no azul foi em 2021; desde então, o saldo vermelho virou regra. No acumulado do ano, o prejuízo já soma R$ 8,5 bilhões, também um recorde histórico para o período.
O peso dos Correios na conta final
A deterioração das contas tem um endereço certo: os Correios. No segundo trimestre, a estatal amargou prejuízo de R$ 2,4 bilhões, uma leve melhora frente à perda de R$ 2,53 bilhões registrada no mesmo intervalo do ano anterior.
A empresa esteve à beira de um colapso de caixa, o que forçou uma reestruturação profunda. Para evitar a paralisação das operações, o Ministério da Fazenda autorizou a concessão de garantia do Tesouro Nacional a um novo empréstimo de R$ 7 bilhões, aprovado no início de setembro.
- Déficit de setembro (só federais): R$ 2 bilhões — pior marca histórica para o mês.
- Acumulado 2024 (jan-set): R$ 8,5 bilhões negativos — recorde da série.
- Mesmo período de 2023: Déficit de R$ 6,3 bilhões.
- Prejuízo dos Correios (2º tri): R$ 2,4 bilhões.
O que entra (e o que fica fora) dessa conta
Nem todas as estatais entram nessa estatística. O Banco Central exclui do cálculo gigantes como Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Das 44 empresas federais, apenas uma parcela compõe o indicador divulgado hoje.
Essa metodologia gera debates. Para o governo, um déficit primário não significa insolvência. A argumentação oficial é que o foco deve estar no resultado líquido — lucro ou prejuízo — e não apenas na diferença entre receitas e despesas correntes.
O dilema do investimento mascarado
O chefe do Departamento de Estatísticas do BC, Fernando Rocha, admite uma limitação técnica importante: a autarquia não consegue separar, nos gastos das estatais, o que é custeio e o que é investimento produtivo.
“O investimento de hoje reduz o caixa agora, mas, se bem feito, permite maior receita no futuro”, explicou Rocha durante a apresentação dos dados fiscais. Na prática, parte do “rombo” pode ser, na verdade, plantação para colher adiante — mas a contabilidade atual trata tudo como despesa.
Panorama geral inclui estados e municípios
Quando somadas as empresas estaduais e municipais, o quadro amplia. O setor público empresarial como um todo registrou déficit de R$ 3,4 bilhões em setembro. Nos nove primeiros do ano, o buraco consolidadado ultrapassa a casa dos bilhões, pressionando a meta fiscal cheia.
Procurado, o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos não comentou os números até o fechamento desta edição.
O que observar daqui para frente
A execução do plano de recuperação dos Correios será o termômetro principal. A injeção de R$ 7 bilhões com aval do Tesouro compra tempo, mas exige resultados operacionais concretos nos próximos trimestres. Outro ponto de atenção: a capacidade do BC de refinar sua metodologia para distinguir gasto de investimento, o que daria transparência real à saúde financeira dessas empresas. Até lá, o déficit primário segue como o termômetro disponível — e ele indica febre alta.
