A Assembleia Geral da ONU aprovou, pela 32ª vez, o fim do embargo a Cuba. A vitória diplomática, porém, veio com o placar mais magro em três décadas: 130 votos a favor, 17 contra e 25 abstenções. Em 2024, apenas dois países haviam se oposto.
O que explica a debandada? A resposta passa por Washington e tem nome: Donald Trump. Entender a mecânica dessa votação é essencial para quem acompanha risco geopolítico e fluxos de capital na América Latina.
O mapa da pressão americana
A lista dos 17 votos contrários lê-se como um rol de aliados recentes da Casa Branca: Argentina, Colômbia, Costa Rica, Equador, Ucrânia, Emirados Árabes, Hungria e seis nações europeias. A abstenção de Chile, Peru, Honduras e Jamaica — históricos apoiadores de Havana — sinaliza que a “chantagem”, termo usado pelo embaixador cubano Victor Manuel Cairo Palomo, funcionou.
Em bastidores diplomáticos, a articulação incluiu ameaças de restrição a ajuda militar, revisão de acordos comerciais e até veto a nomeações em organismos multilaterais. O custo de ficar do lado de Cuba subiu vertiginosamente.
O custo humano que não entra na planilha
Dados apresentados pela embaixada em Brasília dão contorno concreto à abstração “bloqueio”:
- Mortalidade infantil dobrou entre 2025 e 2026: saltou de 4,4 para 9,9 óbitos por mil nascidos vivos.
- Mais de 1,5 mil crianças morreram por falta de medicamentos ou combustível para incubadoras.
- 7 mil contêineres retidos em portos globais — armadores recusam-se a atracar em Cuba temendo sanções secundárias.
Sanções secundárias punem empresas de terceiros países que negociem com a ilha. Na prática, transformam o embargo unilateral em barreiras globais de facto.
Energia, turismo e a asfixia setorial
Desde janeiro de 2025, a administração Trump cortou o fornecimento de petróleo. Havana ficou três meses sem receber um único barril. Resultado: apagões de até dez horas na capital, paralisação de indústrias, perda de safras e colapso na cadeia de frios de alimentos e vacinas.
No turismo — motor principal da economia —, a saída de redes hoteleiras internacionais e da operadora de cartões Visa reduziu a entrada de divisas justamente quando o país mais precisa importar insumos básicos.
A aposta na autonomia e o fator China
Diante do cerco, Cuba acelerou duas frentes: transição para energia solar (com financiamento e tecnologia chineses) e programa emergencial de produção de alimentos. O embaixador admite que é cedo para medir resultados, mas frisa que “o país não pode esperar que o presidente dos EUA mude de ideia”.
Paralelamente, a Justiça americana decretou prisão contra Raúl Castro e o Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio, mirou empresas de “tecnologias sensíveis” com qualquer elo cubano — movimento que expande o alcance extraterritorial das sanções.
O que observar daqui para frente
Três variáveis decidirão se o placar na ONU continuará encolhendo ou se estabiliza:
- Capacidade de Cuba de manter produção mínima de energia e alimentos sem importações pesadas.
- Disposição de parceiros extra-regionais (China, Rússia, Vietnã) em burlar sanções secundárias.
- Calendário eleitoral nos EUA: uma eventual troca de governo em 2028 pode reverter a pressão, mas até lá o custo de conformidade para empresas globais tende a subir.
Para investidores e gestores de risco, a lição é clara: sanções setoriais deixaram de ser ferramenta cirúrgica e viraram arma de efeito em cascata. Mapear exposição indireta a Cuba — via fornecedores, logística ou parceiros financeiros — deixou de ser opcional.
