Internacional

Brasil ignora Flávio Bolsonaro nos EUA e foca em agenda comercial com Trump

Bandeiras do Brasil e EUA lado a lado simbolizando relações comerciais diplomáticas
Governo brasileiro prioriza agenda comercial com EUA e evita crise diplomática com caso Flávio Bolsonaro

O governo brasileiro decidiu blindar a relação comercial com os Estados Unidos do ruído político gerado pela chegada do senador Flávio Bolsonaro (PL) a Miami. A estratégia é clara: manter as negociações em andamento e evitar que o episódio escale para uma crise diplomática entre as duas maiores economias do Hemisfério Ocidental.

Flávio desembarcou na quarta-feira (28) em jato particular fretado por um funcionário da Casa Branca. Segundo o The New York Times, a entrada ocorreu via “parole humanitário” — status migratório excepcional concedido caso a caso. Horas depois, Donald Trump confirmou publicamente ter dado um “passe livre” ao filho do ex-presidente.

Por que o Planalto não vai comprar a briga

A avaliação interna é pragmática: Lula sai fortalecido da reeleição com reconhecimento amplo — do PL ao PT, passando pelo TSE. O presidente do tribunal, Kassio Nunes Marques (indicado por Jair Bolsonaro), validou o resultado. Cobrar reconhecimento explícito de Trump, avaliam auxiliares, transmitiria fragilidade desnecessária.

Um diplomata do Itamaraty resume: “As providências sobre a saída de Flávio cabem ao Judiciário, não ao presidente da República.” A tentativa de paralelos com a Venezuela para justificar a fuga não encontrou respaldo.

O que está em jogo na reunião do G20

Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores, encontra Marco Rubio, secretário de Estado americano, a partir de sexta-feira (30) em Atlanta, durante a cúpula de chanceleres do G20. Não há reunião bilateral agendada, mas a porta está aberta.

Três temas devem ditar a conversa se ela ocorrer:

  • Comércio bilateral: fluxo superior a US$ 80 bilhões/ano;
  • Cadeias de suprimentos: semicondutores, minerais críticos, defesa;
  • Clima e energia: transição verde como vetor de investimentos.

A variável Argentina e o Congresso americano

A mesma postura será adotada com Javier Milei. O governo argentino não reconheceu a vitória de Lula, mas o Brasil não pretende cobrar o gesto nem alterar a relação diplomática — já rebaixada após ofensas do presidente argentino.

Nos bastidores, a equipe de Lula monitora as eleições legislativas nos EUA. Um eventual avanço dos democratas no Congresso poderia criar canais alternativos de diálogo com a administração Trump, hoje alinhada ao bolsonarismo.

O que observar nas próximas semanas

Três sinais dirão se a blindagem funcionou: (1) andamento das negociações de facilitação de comércio e investimentos; (2) ausência de retaliações tarifárias ou barreiras não-tarifárias; (3) manutenção da agenda de cooperação em defesa e tecnologia. Se houver ruído, virá de decisões judiciais brasileiras sobre o senador — não de gestos presidenciais.

Para o empresariado, a mensagem é: a relação de Estado segue apartada da turbulência partidária. O foco continua na pauta econômica que move bilhões.