Economia

Google perde US$ 500 bi em um dia: o que o “modo IA” tem a ver com isso

Gráfico de queda acentuada das ações da Alphabet com ícone de IA sobre logotipo do Google
Alphabet perde US$ 500 bi em valor de mercado após IA canibalizar receita de buscas.

As ações da Alphabet caíram 13% nesta quinta-feira (29), apagando US$ 500 bilhões em valor de mercado — a segunda maior destruição diária de riqueza da história de Wall Street. O gatilho não foi apenas um lucro abaixo do esperado, mas a admissão de que a própria inteligência artificial da empresa está canibalizando seu motor de receita mais rentável.

O fluxo de caixa livre afundou para US$ 9,1 bilhões negativos no trimestre encerrado em setembro, o segundo resultado negativo desde o IPO de 2004. Enquanto isso, os gastos de capital dispararam para US$ 51,3 bilhões no período, com a diretora financeira Anat Ashkenazi sinalizando que o ano pode fechar com até US$ 205 bilhões investidos.

O problema não é gastar — é o retorno

Investidores toleram bilhões em capex quando o fluxo de caixa acompanha. A Microsoft, no mesmo ciclo, investiu US$ 45,2 bilhões e ainda gerou US$ 18,6 bilhões de caixa livre. O Google, não. A diferença expõe uma fratura: a Alphabet está financiando a infraestrutura de IA com dívida e emissão de ações — a primeira venda de papéis em mais de 20 anos, captando cerca de US$ 85 bilhões.

Compromissos futuros com data centers, energia e equipamentos já superam US$ 1 trilhão. A conta chegou antes da receita.

Busca com IA monetiza menos — e a empresa sabe disso

Philipp Schindler, diretor de negócios, confirmou o que o mercado temia: as respostas conversacionais do “modo IA” geram “menor monetização” que os links tradicionais. A receita de publicidade em buscas cresceu 12% (US$ 63,4 bi), mas desacelerou frente aos 20% do início do ano e ficou abaixo das estimativas.

  • Receita total: US$ 127,6 bi (+25%, ligeiramente abaixo do consenso)
  • Lucro líquido: US$ 26,2 bi (-25% a/a, bem abaixo dos US$ 37,3 bi esperados)
  • Lucro operacional: US$ 40,6 bi (+30%, mas aquém dos US$ 43,2 bi projetados)

Parte da queda no lucro líquido veio de perdas com investimentos — a participação na SpaceX caiu 4%, gerando prejuízo de US$ 8,7 bi. Um pagamento de US$ 5,2 bi por multa antitruste europeia também pesou no caixa.

O contraponto: nuvem dobra e vira refúgio

Nem tudo é sinal vermelho. O Google Cloud dobrou a receita para US$ 30,7 bi, impulsionado pela demanda por capacidade de IA — inclusive de rivais como a Anthropic. A estratégia “full-stack” (chips próprios, data centers, modelos Gemini) começa a aparecer nos números.

Sundar Pichai aposta que as novas versões do Gemini — Argon e Carbon — fecham a lacuna em programação, finanças e cibersegurança. A execução, porém, ainda carrega o peso de ter chegado tarde ao mercado corporativo.

O que observar daqui pra frente

O próximo trimestre trará capex recorde (até US$ 73 bi) e fluxo de caixa provavelmente ainda negativo. O mercado vai monitorar dois vetores: se a busca com IA estabiliza a monetização e se a nuvem sustenta o crescimento de dois dígitos. Enquanto isso, a Alphabet carrega a conta mais cara do Vale do Silício — e a paciência dos acionistas tem data de validade.