Economia

Eli Lilly atinge US$ 1,39 trilhão na Bolsa: o que explica o recorde histórico?

Eli Lilly atinge valor de mercado recorde de US$ 1,39 trilhão na Bolsa de Nova York
Ações da farmacêutica disparam 27% em 2024 impulsionadas por medicamentos contra obesidade.

A Eli Lilly acaba de cravara maior cotação de sua história na Bolsa de Nova York, impulsionada por uma combinação rara: lucro acima do esperado, guidance elevado pela segunda vez no ano e uma carteira de medicamentos contra obesidade que não para de crescer. As ações tocaram US$ 1.390 na abertura de quinta-feira (29), valorizando 27% apenas em 2024.

Mas nem tudo são flores no balanço do terceiro trimestre. Um detalhe específico preocupa analistas e pode ditar o ritmo da ação nos próximos meses.

Os números que impressionaram o mercado

O faturamento trimestral saltou quase 40%, atingindo US$ 24,4 bilhões. O grande motor continua sendo a dupla injetável para perda de peso:

  • Mounjaro: vendas de US$ 10,7 bilhões (+65% ano a ano)
  • Zepbound: receita de US$ 5,3 bilhões (+49% na mesma base)

O lucro líquido avançou 16%, para US$ 6,4 bilhões. Com isso, a farmacêutica de Indianápolis elevou a projeção de receita anual para a faixa de US$ 91 a 92 bilhões — antes, a estimativa máxima era US$ 87 bilhões.

O ponto de atenção que ninguém ignora

O comprimido Foundayo, grande aposta da Lilly para competir no segmento oral, decepcionou. Foram US$ 184 milhões em vendas no trimestre, contra US$ 234 milhões previstos pelo consenso da Visible Alpha.

Na mesma semana, o Wegovy, da rival Novo Nordisk, registrou 173,1 mil prescrições semanais nos EUA. O Foundayo ficou em 58 mil. A diferença expõe o desafio da Lilly em um nicho onde a dinamarquesa saiu na frente.

Por que a queda do Foundayo não derrubou a ação

Analistas do BMO Capital Markets classificaram o resultado do oral como “muito abaixo das expectativas”, mas ponderaram que a força do negócio principal — os injetáveis — torna o tropeço menos relevante no curto prazo.

Além disso, a empresa tem um trunfo regulatório a caminho. A FDA avalia autorizar o Foundayo também para diabetes tipo 2. O CEO Dave Ricks revelou que cerca de metade das prescrições de GLP-1 nos EUA já visa essa indicação. Uma aprovação funcionaria como “mais um pilar” para o medicamento.

Expansão agressiva além da obesidade

O caixa gerado pelos emagrecedores financia uma onda de aquisições sem precedentes. Segundo dados da LSEG, a Lilly anunciou US$ 31 bilhões em fusões e aquisições apenas em 2024, abrangendo oncologia, neurociência e até psicodélicos — caso da compra da AtaiBeckley, por até US$ 3,8 bilhões, fechada em julho.

O custo aparece no guidance de lucro por ação: a projeção caiu para US$ 35-36, ante o teto anterior de US$ 36,50.

O que observar daqui para frente

Três variáveis devem ditar o ritmo da ação nos próximos trimestres: a velocidade de expansão da cobertura de planos de saúde para obesidade nos EUA, a decisão da FDA sobre o Foundayo no diabetes e o avanço clínico do retatrutide, candidato de nova geração ainda em desenvolvimento. A combinação entre fluxo de caixa robusto e pipeline diversificado mantém a tese de longo prazo atrativa — mas a execução no segmento oral será o teste de fogo para sustentar o trilhão de dólares em valor de mercado.