A Bunge reportou lucro ajustado de US$ 2,56 por ação no terceiro trimestre, superando a projeção média de analistas de US$ 2,44. O motor do resultado foi a margem robusta no esmagamento de soja e outras oleaginosas, mas a explicação completa passa por um fator externo que pegou o mercado de surpresa.
As vendas líquidas do segmento de processamento e refino saltaram 5,4% na comparação anual, atingindo US$ 11,4 bilhões. Porém, o que sustenta esses números nos próximos meses não está apenas no balanço divulgado nesta quinta-feira (29).
O gatilho geopolítico que esvaziou os silos do Meio-Oeste
Desde o agravamento das tensões no Oriente Médio, os preços do milho e da soja nos EUA dispararam. A reação imediata dos agricultores foi acelerar a venda dos estoques da safra passada, que vinham sendo retidos há meses à espera de cotações melhores.
Essa onda de liquidação inundou o mercado spot justamente quando a indústria precisava de volume. Grandes processadoras — entre elas a própria Bunge e a Archer-Daniels-Midland — capturaram esse fluxo, turbinando a utilização de capacidade e, consequentemente, a margem de esmagamento.
Em paralelo, a alta do petróleo provocada pelo mesmo conflito elevou a paridade dos biocombustíveis. Soja e milho ganharam valor adicional como matéria-prima de biodiesel e etanol, criando uma dualidade de demanda que poucas vezes se alinha com tanta força.
Desempenho por segmento: onde o dinheiro apareceu
A divisão de oleaginosas foi o destaque absoluto, mas a comercialização de grãos também mostrou fôlego. Veja a divisão das receitas líquidas trimestrais:
- Processamento e refino de oleaginosas: US$ 4,3 bilhões (ante US$ 3,6 bi no 3T23)
- Comercialização e moagem de grãos: US$ 6,76 bilhões (alta de 5,2% ano a ano)
O crescimento de quase 20% na receita do esmagamento reflete não apenas volume, mas a expansão do crush spread (diferença entre o preço da soja em grão e os subprodutos farelo e óleo). Esse spread é o termômetro real da rentabilidade da trading.
O efeito nos pequenos negócios e na logística interiorana
O movimento de venda antecipada pelo produtor criou gargalos logísticos temporários no corredor do Mississippi e nos terminais de exportação do Golfo. Quem possui infraestrutura própria de originação — caso da Bunge — transformou o caos operacional em prêmio de risco.
Além disso, a entrada massiva de grão velho no mercado pressionou o basis (diferença entre o preço local e a bolsa de Chicago) em várias praças do Meio-Oeste. Tradings com forte presença física conseguiram capturar essa arbitragem, algo que não aparece explicitamente no lucro por ação, mas engorda o caixa operacional.
Por que a sustentação das margens depende da América do Sul
O cenário favorável nos EUA tem data para perder força: a colheita da safra sul-americana. Se Brasil e Argentina confirmarem as projeções de safra cheia entre janeiro e março, a oferta global volta a pressionar Chicago.
Nesse cenário, a vantagem competitiva migra para quem tem posicionamento de originação na América do Sul. A Bunge expandiu capacidade de esmagamento no Brasil nos últimos ciclos — fator que não impactou o 3T24, mas será decisivo nos dois próximos trimestres.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam se o resultado do terceiro trimestre foi um pico ou o início de um novo patamar: o ritmo de exportações americanas nas próximas semanas, a confirmação da safra brasileira sem adversidades climáticas severas e a evolução dos mandatos de biocombustíveis nas grandes economias. O investidor que monitorar esses pilares terá a régua real para precificar a ação nos próximos balanços.
