Economia

O buraco de 4% do PIB que o próximo presidente finge não ver

Gráfico mostra buraco fiscal de 4% do PIB no Brasil com dívida pública crescendo
O déficit fiscal de 4% do PIB que compromete as contas públicas brasileiras

Estabilizar a dívida pública exigiria um corte de quase 4% do PIB hoje — um número que torna qualquer promessa de campanha irrealizável. O problema não é técnico, é político: falta quem assuma a conta. A resposta para saber se o Brasil evita a crise está nas mãos de uma única pessoa.

O gasto primário federal saltou de 17,8% do PIB (2021-22) para 19,6% em 2023 e não recuou. Enquanto a receita patina, a dívida bruta caminha de 72% para 83% do PIB em poucos anos. Sem um choque de credibilidade, os juros longos disparam e o custo de rolar a dívida engole o Orçamento.

O diagnóstico que assusta o mercado

O desequilíbrio não está em investimentos, mas nas despesas obrigatórias que crescem no piloto automático. Previdência, benefícios sociais indexados e subsídios tributários comprimem o espaço para saúde, educação e infraestrutura.

Medidas recentes aprovadas no Congresso agravaram a equação: em vez de conter a expansão, criaram novas travas para o ajuste futuro. O resultado é uma armadilha onde cada ano sem reforma eleva o custo da correção necessária.

Por que o Banco Central não resolve sozinho

Há quem aposte na independência da autoridade monetária como rede de segurança. Erro estratégico. Juros altos controlam a inflação, mas não criam espaço fiscal; apenas encarecem o financiamento da dívida.

Com juros internacionais elevados, a margem para erros domésticos desapareceu. Sem ancoragem fiscal, a taxa Selic perde eficácia e os juros longos — os que importam para investimentos — permanecem pressionados. Política monetária responsável não substitui a ausência de política fiscal responsável.

O que um ajuste crível exige na prática

Contingenciar verbas ou aumentar impostos pontuais não resolve. É preciso desacelerar permanentemente a trajetória do gasto. O menu de escolhas duras é conhecido:

  • Revisão de indexações e vinculações que engessam o Orçamento;
  • Recalibragem de benefícios sociais para focalizar quem realmente precisa;
  • Reavaliação de subsídios e benefícios tributários que beneficiam setores organizados;
  • Nova reforma da Previdência, incluindo regras do MEI e a distância entre contribuição e benefício;
  • Enfrentamento da regra do salário mínimo que pressiona aposentadorias e pensões.

O inimigo invisível: a desconfiança institucional

Mas há um fator que números não capturam: a insegurança jurídica. Investidores não alocam capital onde contratos são reinterpretados e regras mudam ao sabor de julgamentos. A reforma do Judiciário — com foco em transparência, eficiência e previsibilidade — é tão urgente quanto a fiscal.

Sem confiança nas instituições, o prêmio de risco brasileiro permanece alto, encarecendo cada real investido no país. É um custo invisível que pesa sobre a taxa de juros real e o câmbio.

O que observar daqui para frente

Bons nomes na equipe econômica e discursos de responsabilidade são necessários, mas insuficientes. O teste real será a disposição do Palácio do Planalto em gastar capital político para aprovar reformas impopulares e arbitrar conflitos internos.

Se o presidente terceirizar as escolhas difíceis ao Congresso ou ao Banco Central, a credibilidade da equipe econômica se dissolve na primeira votação difícil. A crise não está contratada pelo mercado, mas pela omissão de quem tem a caneta. O adulto na sala precisa ser o chefe do Executivo — e o relógio não para.