Economia

Bunge surpreende Wall Street: o segredo por trás do lucro acima do esperado

Silos de armazenamento de soja da Bunge com caminhões carregando grãos ao pôr do sol
Processamento de soja impulsiona lucro recorde da Bunge no terceiro trimestre de 2024

A Bunge reportou lucro ajustado de US$ 2,56 por ação no terceiro trimestre, superando a projeção média de analistas de US$ 2,44. O motor do resultado foi a margem robusta no esmagamento de soja e outras oleaginosas, mas a explicação completa passa por um fator externo que pegou o mercado de surpresa.

As vendas líquidas do segmento de processamento e refino saltaram 5,4% na comparação anual, atingindo US$ 11,4 bilhões. Porém, o que sustenta esses números nos próximos meses não está apenas no balanço divulgado nesta quinta-feira (29).

O gatilho geopolítico que esvaziou os silos do Meio-Oeste

Desde o agravamento das tensões no Oriente Médio, os preços do milho e da soja nos EUA dispararam. A reação imediata dos agricultores foi acelerar a venda dos estoques da safra passada, que vinham sendo retidos há meses à espera de cotações melhores.

Essa onda de liquidação inundou o mercado spot justamente quando a indústria precisava de volume. Grandes processadoras — entre elas a própria Bunge e a Archer-Daniels-Midland — capturaram esse fluxo, turbinando a utilização de capacidade e, consequentemente, a margem de esmagamento.

Em paralelo, a alta do petróleo provocada pelo mesmo conflito elevou a paridade dos biocombustíveis. Soja e milho ganharam valor adicional como matéria-prima de biodiesel e etanol, criando uma dualidade de demanda que poucas vezes se alinha com tanta força.

Desempenho por segmento: onde o dinheiro apareceu

A divisão de oleaginosas foi o destaque absoluto, mas a comercialização de grãos também mostrou fôlego. Veja a divisão das receitas líquidas trimestrais:

  • Processamento e refino de oleaginosas: US$ 4,3 bilhões (ante US$ 3,6 bi no 3T23)
  • Comercialização e moagem de grãos: US$ 6,76 bilhões (alta de 5,2% ano a ano)

O crescimento de quase 20% na receita do esmagamento reflete não apenas volume, mas a expansão do crush spread (diferença entre o preço da soja em grão e os subprodutos farelo e óleo). Esse spread é o termômetro real da rentabilidade da trading.

O efeito nos pequenos negócios e na logística interiorana

O movimento de venda antecipada pelo produtor criou gargalos logísticos temporários no corredor do Mississippi e nos terminais de exportação do Golfo. Quem possui infraestrutura própria de originação — caso da Bunge — transformou o caos operacional em prêmio de risco.

Além disso, a entrada massiva de grão velho no mercado pressionou o basis (diferença entre o preço local e a bolsa de Chicago) em várias praças do Meio-Oeste. Tradings com forte presença física conseguiram capturar essa arbitragem, algo que não aparece explicitamente no lucro por ação, mas engorda o caixa operacional.

Por que a sustentação das margens depende da América do Sul

O cenário favorável nos EUA tem data para perder força: a colheita da safra sul-americana. Se Brasil e Argentina confirmarem as projeções de safra cheia entre janeiro e março, a oferta global volta a pressionar Chicago.

Nesse cenário, a vantagem competitiva migra para quem tem posicionamento de originação na América do Sul. A Bunge expandiu capacidade de esmagamento no Brasil nos últimos ciclos — fator que não impactou o 3T24, mas será decisivo nos dois próximos trimestres.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam se o resultado do terceiro trimestre foi um pico ou o início de um novo patamar: o ritmo de exportações americanas nas próximas semanas, a confirmação da safra brasileira sem adversidades climáticas severas e a evolução dos mandatos de biocombustíveis nas grandes economias. O investidor que monitorar esses pilares terá a régua real para precificar a ação nos próximos balanços.