O governo liberou R$ 180,5 bilhões em empréstimos que não aparecem na meta fiscal deste ano — um volume que triplicou em três anos. A conta chega depois, na dívida pública, e o custo real pode ser muito maior do que o oficial.
A Instituição Fiscal Independente (IFI) divulgou o levantamento nesta quinta-feira (29). O órgão ligado ao Senado alerta: tirar operações do cálculo da meta não elimina o custo, apenas muda quando e onde ele aparece.
O truque contábil que infla a dívida futura
Quando o Tesouro transfere dinheiro para BNDES, Banco do Brasil ou Caixa repassarem a empresas e famílias, a contabilidade pública não registra despesa primária. O governo mantém um “crédito a receber”, então a operação fica fora da meta e do teto do arcabouço fiscal.
Mas há um detalhe: se os juros cobrados do tomador final forem menores que os pagos pelo governo para se financiar, a diferença vira subsídio oculto. A IFI estima esse custo em R$ 4,1 bilhões para contratos de 2025 e R$ 10,2 bilhões para 2026.
Se a taxa de juros não cair como o mercado espera, os números saltam para R$ 6,4 bilhões e R$ 15,9 bilhões, respectivamente. E a instituição avisa: as projeções provavelmente subestimam o total, pois não foi possível calcular o subsídio de todas as linhas.
Para onde foi o dinheiro em 2026
Até outubro, as linhas criadas ou expandidas a partir de 2024 receberam R$ 149,9 bilhões — o dobro do ano inteiro de 2023. Elas respondem por 68% do total. Os quatro maiores destinos:
- Minha Casa, Minha Vida (Fundo Social): R$ 35 bilhões
- Fundo Clima: R$ 34 bilhões
- Veículos para motoristas de app e taxistas: R$ 30 bilhões
- Plano Brasil Soberano (exportadores atingidos por tarifas dos EUA): R$ 22 bilhões
Parte desses recursos saiu via créditos extraordinários — instrumento para despesas urgentes e imprevisíveis. Em 2026, financiaram também o programa Move Brasil e empréstimos a companhias aéreas pelo FNAC.
O outro lado da conta: deduções que engordam
Não é só o crédito fora da meta. Despesas que entram no resultado primário, mas são excluídas do cálculo de cumprimento da meta, subiram de R$ 48,7 bilhões (2025) para R$ 67,3 bilhões previstos para 2026.
O motor principal: precatórios acima do sublimite, estimados em R$ 54,7 bilhões no próximo ano. Ou seja, a “meta oficial” fica cada vez mais distante da realidade do caixa.
Por que o governo usa esse atalho
A IFI aponta quatro fatores estruturais, sem julgar intenções:
- O arcabouço fiscal limita apenas despesas primárias, deixando brecha para operações financeiras.
- Gastos discricionários (onde o governo tem liberdade) encolheram, empurrando decisões para fundos e bancos públicos.
- Há saldos acumulados em fundos da União disponíveis para uso imediato.
- O custo real fica invisível no ano da concessão, fazendo as operações parecerem mais baratas do que são.
O que observar daqui para frente
A transparência fiscal depende de acompanhar não só a meta oficial, mas o saldo de operações de crédito concedidas e o custo de carregamento da dívida nos anos seguintes. Para investidores e gestores, o sinal é claro: o resultado primário divulgado mensalmente conta apenas parte da história. O resto está no crescimento do estoque de dívida e nos subsídios embutidos que surgirão no Orçamento futuro — muitas vezes sem debate público prévio.
